Futebol

Cultura do fracasso? Amadorismo das diretorias faz do futebol brasileiro uma “máquina de moer técnicos”

Regra cultural ou amadorismo das diretorias?

Nesta matéria, vamos discorrer sobre um assunto que, com o passar do tempo, virou rotina no futebol brasileiro: a famosa “dança dos técnicos”. Mas por que isso ocorre? Quantas vezes nós, torcedores, colocamos a culpa dos maus resultados do time em campo apenas no treinador? Serão eles os maiores culpados?

Quem os contrata, no caso as diretorias, faz contratos longos e com multas rescisórias altas, em tese acreditando no bom trabalho do profissional pelo destaque obtido em seu clube anterior. O que deveria servir de respaldo para os técnicos, no entanto, vai por terra rapidamente. Uma temporada planejada para ser um ano tranquilo, com treinadores mostrando sua identidade em relação às formações táticas e convicções, acaba sendo muito prejudicada pelo amadorismo das diretorias, que exigem resultados imediatos e não deixam o profissional trabalhar em paz.

Claro que há jogadores que fazem “corpo mole”. A torcida vê isso e quer esse tipo de atleta longe do clube. Mas será que esse jogador renegado não pode ser útil ao novo treinador no esquema de jogo preferido pelo comandante?

Além do mais, os novos treinadores herdam trabalhos anteriores de técnicos que pediram contratações de jogadores de seu agrado. Em pouco tempo, esse profissional é mandado embora, e o técnico seguinte precisa trabalhar com atletas que não pediu, tendo que se desdobrar para achar a equipe ideal. Quando esses novos comandantes chegam, trazem suas próprias convicções táticas. Com isso, os jogadores não utilizados são, em sua grande maioria, negociados por empréstimo com passe fixado baixo para tentar reaver o prejuízo das contratações.

Os campeonatos estaduais servem de parâmetro para o restante da temporada, avaliando o trabalho do treinador recém-chegado, que ainda não conhece o clube e está tendo o primeiro contato com os atletas para avaliar com quem pode ou não contar. Durante os estaduais, porém, os jogadores estão voltando de férias e ficam mais propícios a sofrer lesões que podem estragar uma temporada puxada, geralmente com mais de 70 jogos.

Se um jogador-chave para a equipe se contunde, a temporada inteira fica comprometida. Diante disso, fica a questão: nos estaduais, só vale o título para dar uma certa tranquilidade ao técnico com resultados imediatistas, ou o que realmente importa são as experiências adquiridas para formar uma espinha dorsal para a equipe?

O trabalho a longo prazo seria o ideal para as equipes. Contudo, com a pressão dos estaduais em que apenas o título interessa, sem avaliar como a equipe se comporta em campo, o que resta da confiança depositada no treinador após a sua contratação?

Neste ponto entra o amadorismo das diretorias. Em sua maioria, as SAFs são comandadas por torcedores do clube que usam a razão de torcedor, e não a lógica necessária para fazer o trabalho que se espera da gestão de um clube grande no Brasil. Em clubes que não viraram SAF, o problema se repete: o amadorismo prevalece.

Para ilustrar esse cenário no futebol brasileiro, um estudo detalha o número de treinadores demitidos na Série A do Campeonato Brasileiro desde 2018:

  • 2018: 26 trocas (lembrando que o Campeonato Brasileiro tem 20 times)
  • 2019: 19 trocas
  • 2020: 22 trocas
  • 2021: 18 trocas
  • 2022: 20 trocas
  • 2023: 22 trocas
  • 2024: 17 trocas

A título de comparação, o Campeonato Brasileiro, vindo na sequência dos estaduais, vira uma verdadeira máquina de moer treinadores. A média de mais de uma demissão por rodada pode parecer alta, mas iguala ou supera outras quatro edições desde 2006, ano em que o torneio passou a ser disputado por 20 clubes nos pontos corridos.

Em 2010, por exemplo, 30 técnicos foram demitidos ao longo de 38 rodadas. Em 2006 e 2008, foram 27 trocas. A edição de 2015 traz outro dado curioso: foram realizadas 24 trocas, mas apenas um clube não mudou de treinador ao longo da competição. Trata-se do Corinthians, campeão brasileiro daquele ano, que manteve Tite durante as 38 rodadas.

Na média, apenas seis clubes mantêm o mesmo treinador ao longo de uma edição do Brasileirão. O menor número de trocas registrado na era dos pontos corridos com 20 clubes ocorreu em 2012, quando houveram 16 demissões.

Com números tão alarmantes, fica a dúvida: os dirigentes dos clubes brasileiros não aprendem com os erros ou preferem insistir neles para não assumir a culpa de uma má gestão?

Na Europa, por mais que os treinadores não consigam o êxito imediato que a diretoria e os torcedores esperam, o profissional costuma ser mantido. Como exemplo, no Atlético de Madrid, Diego Simeone está no cargo há 15 temporadas. No Arsenal, após bater na trave em vários campeonatos perdendo para o Manchester City, o clube enfim conquistou a Premier League e foi vice-campeão da Champions League mantendo Mikel Arteta, que está no comando há seis anos e meio, desde dezembro de 2019 (vale lembrar que Arteta também foi jogador dos Gunners entre 2011 e 2016).

O questionamento que fica é: vale a pena manter o trabalho a curto prazo no Brasil, colocando uma pressão imediatista por títulos principalmente em estaduais, ou manter o técnico a longo prazo traz mais resultados, por mais que demorem? Os exemplos europeus mostram claramente o contraste entre a forma de pensar dos dirigentes no exterior e no Brasil.

Tirando o Palmeiras, algum outro clube brasileiro será capaz de dar longevidade aos seus treinadores, ou será difícil enxergar no próprio país o exemplo do que é feito no clube alviverde?

Seria essa uma regra cultural para encobrir os fracassos das diretorias do futebol brasileiro?

Autores: Luiz Fabel e Lucas Rodrigues

Um comentário sobre “Cultura do fracasso? Amadorismo das diretorias faz do futebol brasileiro uma “máquina de moer técnicos”

  • Excelente matéria e uma reflexão muito pertinente Luiz Fabel! O futebol brasileiro realmente vive uma cultura de imediatismo, onde o treinador acaba sendo o primeiro a pagar pelos erros de planejamento e gestão das diretorias.
    Mais do que trocar técnicos, os clubes precisam de planejamento, critérios e tempo para desenvolver um trabalho. Sem isso, o ciclo de demissões apenas se repete e os mesmos problemas continuam.

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