Basquete

O novo xerife de Dallas: Mavericks chegam à temporada 2026/27 apostando no salto de Cooper Flagg

No Texas, todo xerife precisa estar preparado para assumir o comando e colocar ordem em uma terra sem lei. Como novo líder do Dallas Mavericks, Cooper Flagg terá uma missão parecida em seu segundo ano, já que a equipe texana começa a temporada 2026/27 ainda tentando descobrir exatamente o que é e o que pode ser.

Depois de terminar o último ano com apenas 26 vitórias e impressionantes 56 derrotas, a franquia chega a este novo ciclo com uma estrutura completamente diferente daquela que chegou às Finais da NBA há dois anos, começando pela diretoria e passando por todo o comando técnico. Mas nenhuma mudança será mais importante para o sucesso dos Mavs do que o desenvolvimento de Cooper Flagg.

Vencedor do prêmio Rookie of the Year (melhor calouro do ano) de 2025/26, Flagg teve uma primeira temporada muito acima do que normalmente se espera de um jogador de 19 anos. Agora, porém, começa uma etapa diferente: Flagg não é mais uma promessa tentando descobrir seu espaço na liga, e sim o principal jogador dos Mavericks. A expectativa é de que ele dê um grande salto técnico no seu segundo ano.

Ao mesmo tempo, Dallas terá o tão aguardado retorno de Kyrie Irving, que perdeu toda a temporada passada por conta de uma lesão no ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho esquerdo.

Cooper Flagg e Kyrie Irving treinando juntos no começo de setembro, durante as férias. (foto: Divulgação/@dallasmavs)

A franquia também passou por mudanças significativas fora das quadras: o time terá Dusty May como seu novo técnico, após a demissão de Jason Kidd. No começo de 2026, May foi campeão da NCAA (liga universitária do basquete americano) como treinador da Universidade de Michigan. Apesar dessa bagagem, ele é tratado como um grande ‘tiro no escuro’, já que essa será sua primeira experiência na NBA. Dallas aposta na sua capacidade de desenvolver e trabalhar com jovens para ajudar no salto de Cooper Flagg e companhia.

Outra mudança importante foi a chegada de Masai Ujiri como Presidente da equipe e principal responsável pela construção do elenco. Ujiri era o gerente geral do Toronto Raptors e foi um dos responsáveis por convencer Kawhi Leonard a se juntar à equipe em 2018/19, movimento que ajudou a levar a franquia canadense ao título inédito de 2019. O desafio agora é fazer o mesmo pelo Dallas Mavericks nos próximos anos.

Sem dúvida nenhuma, este é um time diferente e ainda bastante difícil de decifrar.

Dusty May, novo técnico dos Mavericks, e Masai Ujiri, novo presidente da franquia. (foto: Divulgação/@dallasmavs)

Cooper Flagg PRECISA dar o salto do segundo ano

Para toda jovem superestrela da NBA em formação, a offseason entre a temporada de calouro e o segundo ano costuma ser a mais importante. LeBron James já era um fenômeno quando entrou na liga, por exemplo, mas foi justamente em sua segunda temporada que o salto ficou evidente: sua média de pontuação passou de 20.9 para 27.2 pontos por jogo. Luka Dončić, que ainda é muito querido pela cidade de Dallas, também chegou à NBA em 2018 causando impacto imediato, mas foi no segundo ano que começou a se transformar definitivamente no jogador que conhecemos hoje.

Agora, é a vez de Cooper Flagg. O jovem ala terminou sua primeira temporada com médias de 21 pontos, 6.7 rebotes e 4.5 assistências por partida. Além disso, ele foi o líder dos Mavericks em pontos, rebotes, assistências e roubos de bola e tornou-se o segundo novato da história da NBA a liderar sua equipe nessas quatro categorias, ao lado de Michael Jordan. Também foi o jogador mais jovem da história da NBA a alcançar a marca de 50 pontos em uma única partida.

Ou seja, a barra já está bastante alta. Até existe naturalmente uma margem maior de tolerância para jogadores no primeiro ano, já que a adaptação ao calendário, ao nível físico, à intensidade do jogo e à velocidade da NBA não é nada fácil. Contudo, no segundo ano, a expectativa muda. Flagg já conhece a liga, já sabe o que funciona e o que não funciona e já foi testado entre os melhores. Agora, precisa transformar o aprendizado em produção ainda maior.

O vigor físico de Cooper Flagg é uma de suas principais características. (foto: Tom Fox/Dallas Morning News)

A própria franquia fez questão de colocar a bola nas mãos de Flagg durante a temporada passada, dando ao jovem ala responsabilidades de criação que normalmente não seriam atribuídas a um jogador tão novo. A experiência funcionou, e pode ser uma das bases para a evolução do seu jogo.

É isso que torna a expectativa em torno de Flagg tão interessante: não se trata mais de descobrir se ele pode ser uma superestrela. A questão agora é saber até onde ele pode chegar.

Kyrie Irving será um Maverick para sempre?

Quando Kyrie Irving chegou a Dallas, em 2023, havia muitas dúvidas sobre seu encaixe no time. O armador carregava uma trajetória cercada por polêmicas e incertezas, mas os Mavericks apostaram que sua capacidade técnica poderia complementar Luka Dončić e formar uma dupla capaz de levar a equipe novamente ao topo da NBA.

O cenário mudou completamente desde então: Irving se tornou uma figura querida em Dallas, ganhou espaço de liderança dentro do vestiário com a saída de Luka, e passou a ser tratado como uma referência para os jogadores mais jovens. Agora, aos 34 anos, ele volta depois de passar toda a temporada 2025/26 se recuperando de uma ruptura do LCA sofrida em março de 2025. Na temporada anterior à lesão, tinha médias de 24.7 pontos, 4.8 rebotes e 4.6 assistências, além de 40,1% nos arremessos de três.

Kyrie Irving pode ser o ‘mentor’ do grande salto técnico de Cooper Flagg. (foto: Sam Hodde/Getty Images)

A questão é que o retorno de Irving acontece justamente quando Dallas começa a construir uma equipe em torno de Flagg, e isso cria uma dúvida interessante: a franquia vai tratar Kyrie como uma peça fundamental da próxima tentativa de competir pelo título ou como um ativo que pode ser trocado caso o projeto tome outra direção? Essa resposta pode depender de como a temporada vai começar.

Por enquanto, os sinais vindos de Dallas apontam para uma valorização da parceria. Irving treinou durante todo o verão americano e vem trabalhando para retornar à quadra, enquanto Flagg também passou parte da offseason desenvolvendo sua relação com o veterano.

O novo técnico Dusty May, inclusive, não economizou nos elogios a Kyrie. Depois de acompanhar um treino de Irving durante a Summer League, May disse que teve a sensação de estar vendo “Picasso pintando um quadro”. O novo treinador também afirmou que enxergava Flagg como uma jovem superestrela e Irving como um dos melhores armadores da história. Agora, ele terá a missão de transformar a combinação dessa dupla em um basquete competitivo.

Dusty May começa uma nova vida na NBA

A chegada de Dusty May também é uma das grandes histórias dos Mavericks. Depois de conquistar o título da NCAA com o Michigan Wolverines em 2026, May deixou o basquete universitário para assumir seu primeiro trabalho como técnico da NBA.

A mudança representa um desafio enorme, mas também coloca May diante de uma situação incomum: ele terá que trabalhar um jogador de 19 anos que acabou de ser eleito Calouro do Ano, um grande veterano de 34 anos voltando de uma lesão grave e um elenco que ainda precisa encontrar sua identidade.

Dusty May comemora o título da NCAA por Michigan após derrotar UConn na final. (foto: Michael Conroy/AP Photo)

May terá de fazer mais do que apenas desenhar jogadas. O principal desafio será descobrir como dividir responsabilidades ofensivas entre Flagg e Irving sem limitar o crescimento do jovem astro. Flagg já mostrou que pode conduzir a bola e criar para os companheiros, mas Irving, por outro lado, continua sendo um dos jogadores mais habilidosos da liga quando está saudável. Se os dois encontrarem um equilíbrio, Dallas pode ter uma dupla bastante interessante para observar.

Masai Ujiri ainda precisa ajustar esse elenco

O otimismo coletivo que se criou em Dallas após a saída do ex-gerente geral Nico Harrison, responsável pela infame troca de Luka Dončić, começou a se dissipar, e isso indica que chegou a hora de mais ação e menos lua-de-mel.

Masai Ujiri chegou a Dallas com a responsabilidade de comandar a reconstrução do elenco e dar uma direção mais clara à franquia. O currículo ajuda, mas agora será necessário transformar a mudança de liderança em decisões concretas, e há alguns problemas evidentes para resolver.

Os Mavericks têm poucas opções para organizar o ataque. Kyrie é o principal armador, mas retorna de uma lesão que o deixou fora por uma temporada inteira. Marcus Sasser chega para disputar espaço na rotação, enquanto os recém-draftados Sergio de Larrea e Tarik Biberović farão sua primeira temporada na NBA.

O problema é que depender exclusivamente de Irving para conduzir o ataque seria arriscado. Exigir que ele volte imediatamente ao papel de principal organizador depois de 19 meses afastado das partidas também não parece o caminho mais prudente. Os Mavericks terão que encontrar uma forma de distribuir essa responsabilidade.

A solução pode passar por Flagg assumindo um papel de criador e iniciando mais posses com a bola, algo que já aconteceu no ano passado. É uma alternativa possível, mas também revela uma fragilidade do elenco.

Os novos calouros de Dallas: Tobi Lawal, Morez Johnson Jr. e Sergio De Larrea (foto: Divulgação/NBA)

Dallas teve uma offseason muito movimentada, com muitas novas aquisições, tanto via Draft quanto com trocas. Chegaram Santi Aldama, Zaccharie Risacher, Marcus Sasser, Morez Johnson Jr., Sergio de Larrea, Tobi Lawal e Tarik Biberović, enquanto Klay Thompson deixou a equipe para jogar no Miami Heat.

Apesar de precisarem de lapidação, há bastante talento nesses nomes, e isso é inegável. O que ainda não está claro é se existe equilíbrio suficiente. Portanto, Ujiri terá mais trabalho pela frente. A mudança de gestão precisa aparecer dentro da quadra, e não apenas no discurso.

É tudo ou nada para Dereck Lively II

Talvez nenhuma questão física seja tão importante para os Mavs quanto a situação de Dereck Lively II. O jovem pivô teve papel importante na campanha que levou Dallas às Finais da NBA em 2024 e mostrou rapidamente que poderia ser uma peça fundamental do futuro da franquia. O problema é que sua disponibilidade passou a ser uma preocupação constante.

Lively não joga basquete desde o dia 21 de novembro de 2025, disputou apenas sete partidas na última temporada e precisou passar por uma cirurgia no pé direito em dezembro. Com a próxima temporada já batendo à porta, o departamento médico dos Mavs ainda não o liberou para participar do training camp que começa nesta sexta-feira (25), e seu status para a estreia do time permanece indefinido. 

A franquia tem Daniel Gafford, Santi Aldama e o novato Morez Johnson Jr. como alternativas para o garrafão, mas, quando saudável, Lively oferece uma dimensão diferente ao time, especialmente na parte defensiva.

Dereck Lively II não joga basquete desde o dia 21 de novembro de 2025. (foto: Jerome Miron/Imagn Images)

Lively tem apenas 22 anos e ainda pode fazer parte do núcleo de longo prazo ao redor de Flagg. Mas, depois de recorrentes problemas físicos, sua capacidade de permanecer em quadra será tão importante quanto seus atributos. Caso não consiga se manter saudável por mais uma longa temporada, a franquia poderá ser obrigada a pensar no futuro sem ele.

O Dallas Mavericks pode ser competitivo?

Aqui temos o ‘X da questão’, a pergunta de um milhão de dólares. Essa é a parte mais difícil de prever.

Dallas terminou 2025/26 com somente 26 vitórias e ficou de fora dos Playoffs pela segunda temporada consecutiva. Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o elenco que começa agora é bastante diferente: o time tem muitos jovens interessantes, jogadores experientes, um novo treinador e uma nova estrutura de comando. Isso pode ser suficiente para fazer os Mavs subirem alguns degraus na Conferência Oeste, mas existe um abismo de diferença entre ser melhor e ser realmente competitivo.

O cenário mais plausível para Dallas é passar por uma temporada de construção, na qual o desempenho de Flagg será o principal termômetro. Se o jovem astro der o salto esperado; se Irving conseguir voltar a ser o jogador que era antes da lesão; se Dusty May estabelecer um time coerente; e se Lively finalmente conseguir se manter saudável, Dallas terá uma base interessante para competir. Se a 1ª escolha do Draft de 2024, Zaccharie Risacher, também conseguir finalmente desempenhar um bom basquete com os novos ares de Dallas, o teto da equipe pode subir ainda mais.

Cooper Flagg, Kyrie Irving e Dereck Lively durante partida contra o Oklahoma City Thunder. (foto: Dallas Morning News)

O problema é que são muitos fatores e, na NBA, depender de tantos “e se” é perigosíssimo. Ainda assim, seria precipitado tratar Dallas como uma equipe sem chance nenhuma de disputar espaço pelo menos no meio de tabela da conferência. A própria franquia reconhece que o caminho será gradual, mas vê potencial para uma evolução na classificação caso a saúde do time ajude.

Talvez a melhor forma de enxergar os Mavericks neste momento seja não como um candidato pronto, mas como uma equipe tentando descobrir se já tem peças suficientes para acelerar o projeto. Kyrie Irving é a grande incógnita, Dereck Lively é a grande preocupação, e Cooper Flagg é o grande motivo para acreditar. Em meio a um mar de jogadores perdidos em uma franquia que estava à deriva, Dusty May tem a missão de ser o capitão do navio que vai levar essa tripulação à terra prometida.

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