A vaga veio, mas a desconcentração na Vila manda um aviso claro ao Santos
Quem olhou apenas para o placar final de 4 a 2 na Vila Belmiro (consolidando o placar elástico de 8 a 3 no agregado) pode até achar que a noite de terça-feira foi pura festividade.
Mas serei bem sincero: Não foi.
O leitor que assistiu ao jogo com a atenção que o futebol exige teve a incômoda sensação de que o Santos caminha constantemente no limite entre o talento individual indiscutível e uma perigosa displicência coletiva. Avançar às oitavas de final da Copa Sul-Americana era obrigação cumprida contra a Universidad Central. O problema não foi passar, mas sim como o Peixe flertou com a desatenção contra um adversário digno de A3 de Paulistão (sem ofensas aos venezuelanos).
Entrar em campo com a vantagem de ter vencido a ida por 4 a 1 por vezes anestesia. Mas tomar um gol com menos de 20 segundos de bola rolando, em uma saída errada de Adonís Frías concluída por Samuel Sosa, é o tipo de erro que não cabe em um clube como o Santos.

Foi um primeiro tempo arrastado, burocrático e sem intensidade, onde a UCV parecia ter mais controle emocional da partida do que o próprio dono da casa. O empate de Miguelito, com um frangaço do goleiro venezuelano, no fim da primeira etapa salvou as aparências, mas o recado do gramado já estava dado.
O banco resolveu, mas a defesa voltou a cochilar
A virada na etapa final passou diretamente pela entrada dos titulares postos por Cuca. A presença de Gabriel Bontempo renovou a dinâmica do corredor direito, enquanto Neymar deu peso ofensivo e Gabigol (apesar do festival de chances desperdiçadas até finalmente desencantar, nem parecia o Gabriel Barbosa matador que estamos acostumados )movimentou a área venezuelana. Os gols de Gabigol, Gabriel Menino (achando seu lugar na lateral-direita) e Rony desenharam a vitória esperada.
Contudo, mesmo no momento de maior domínio, o Santos ofereceu brechas inaceitáveis. O gol de Mottes, descontando para a UCV em cobrança de escanteio onde o zagueiro desviou livre de coxa no meio da área, escancarou a falta de concentração crônica dessa equipe. Contra um adversário venezuelano de menor expressão, a gordura acumulada no jogo de ida absorve o baque. Contra concorrentes diretos no futebol brasileiro ou fases mais avançadas do continente, esse tipo de apagão custa eliminações dolorosas.

Liderança no vestiário e a urgência financeira
Fora de campo, a partida veio embalada por ruídos pesados. A cobrança ríspida de Neymar sobre os jovens do elenco após o tropeço contra a Chapecoense virou o assunto da semana. Embora o camisa 10 adote o tom de liderança necessária em sua fala (afirmando ter o direito de cobrar como capitão), a cobrança ríspida em momentos de oscilação expõe um ambiente sob tensão constante. A declaração forte de Neymar sobre o fim definitivo de seu ciclo na Seleção Brasileira apenas reforça que seu foco total e exclusivo hoje é o ambiente santista, onde sua voz centraliza todas as atenções.
Financeiramente, a classificação vale muito mais do que a festa no gramado. Com a cota de 600 mil dólares (cerca de R$ 3,08 milhões) garantida pela Conmebol, o Santos ganha um fôlego vital para amenizar a delicada situação do clube, que convive com dois meses de direitos de imagem atrasados, um transfer ban da Fifa por dívidas antigas e um passivo que supera R$ 1 bilhão. Na Vila Belmiro, avançar em mata-matas deixou de ser mero capricho esportivo para se tornar plano de sobrevivência institucional.
O que esperar nas decisões que virão
O Santos avança para encarar o Macará, do Equador, nas oitavas da Sul-Americana, mas o teste imediato exige chave virada sem demora. O confronto diante do Remo pela Copa do Brasil demanda um nível de postura completamente diferente.
O torcedor santista sai da Vila satisfeito com os quatro gols comemorados, mas ciente de que o time precisa jogar com seriedade do primeiro ao último segundo. No futebol de hoje, o talento pode resolver jogos, mas a falta de concentração consegue destruir temporadas.
