Jardim reconhece atuação abaixo do Flamengo, explica escolha por Paquetá e exalta torcida após classificação
Treinador admitiu desempenho abaixo do esperado contra o Independiente del Valle, explicou opção por Paquetá no lugar de Arrascaeta e voltou a criticar o gramado do Maracanã
Leonardo Jardim não tentou maquiar a atuação do Flamengo após a classificação para a semifinal da Libertadores. Na entrevista coletiva depois do empate por 1 a 1 com o Independiente del Valle, no Maracanã, o treinador reconheceu que sua equipe esteve abaixo do nível apresentado em outros momentos da temporada.
Ao analisar o desempenho, Jardim apontou dificuldades técnicas e, principalmente, nos duelos individuais.
“Tenho certeza que não fizemos o melhor jogo da temporada. Tivemos alguns duelos que deveríamos ter ganhado e não ganhamos. Em termos técnicos, também não foi um jogo muito bonito.”
O treinador, porém, voltou a colocar as condições do gramado do Maracanã entre os fatores que prejudicaram o futebol apresentado pelo Flamengo.
“Volto a bater nisso, mas o gramado não nos ajudou. O Erick precisou dar cinco toques na bola para pôr a bola no chão e começar a jogar.”
Não é a primeira vez que as condições do campo do Maracanã aparecem como tema nas entrevistas do treinador. Desta vez, Jardim relacionou diretamente o estado do gramado à dificuldade da equipe para executar tecnicamente aquilo que havia planejado.
Por que Paquetá e não Arrascaeta?
Uma das principais questões da noite envolveu a escalação de Lucas Paquetá. Leonardo Jardim optou pelo camisa 20 entre os titulares e deixou Arrascaeta no banco.
Questionado sobre a decisão, o português explicou que a escolha estava relacionada à expectativa de encontrar um Independiente del Valle mais agressivo fisicamente.
“Todos sabíamos que eles viriam mais agressivos, então a ideia foi colocar o Paquetá porque ele é mais físico, pensando nos duelos na entrada da área.”
Jardim também reconheceu que o plano não produziu o resultado esperado e que Paquetá esteve abaixo do próprio nível.
Para explicar a situação, recorreu até a uma expressão portuguesa:
“Lá em Portugal existe uma coisa que dizemos: os melões só vemos se são bons depois de abrir.”
E completou a avaliação sobre o camisa 20:
“Ele não fez um jogo à sua dimensão. Graças a Deus temos um elenco que, quando um não está bem, temos outro à altura.”
O “outro”, neste caso, foi justamente Arrascaeta. O uruguaio entrou durante o segundo tempo e marcou o gol de empate que encerrou qualquer possibilidade de reação do Del Valle na eliminatória.
“Só somos favoritos dentro de campo”
Outro ponto importante da entrevista foi a maneira como Jardim tratou o favoritismo do Flamengo.
O treinador fez questão de afastar a ideia de que a vantagem de 2 a 0 construída no Equador significava uma classificação antecipada.
“Temos que chamar a atenção que só somos favoritos dentro de campo, não fora de campo.”
Para Jardim, parte da percepção externa em torno da eliminatória desconsiderou a capacidade do Independiente del Valle de criar dificuldades no Maracanã.
“Muitos acharam que o jogo já estava resolvido, e o futebol não é isso.”
A declaração ajuda a explicar o tom adotado pelo treinador durante praticamente toda a coletiva: menos preocupado em celebrar uma atuação e mais interessado em valorizar a capacidade da equipe de superar um cenário que se tornou adverso.
Jardim também lembrou o equilíbrio das quartas de final da competição ao destacar:
“Fomos a única equipe brasileira que não perdeu nas quartas de final.”
Jardim coloca a torcida no centro da classificação
Se houve autocrítica em relação ao desempenho, o maior elogio da entrevista foi direcionado à arquibancada.
Jardim destacou principalmente a reação do Maracanã após a expulsão de Jorginho no segundo tempo. Em vez de aumentar a tensão sobre a equipe, o treinador avaliou que o comportamento da torcida teve efeito contrário.
Foi daí que surgiu a frase mais forte da coletiva:
“Quando Jorginho saiu, a torcida entrou. Foi o 12º jogador.”
Jardim chegou a tratar o restante da partida como um cenário de “dez mais um”.
“Nós nem sentimos falta dele. Nos defendemos muito bem, e aquela energia que a torcida passou deu um esforço muito grande para procurarmos o empate.”
Para o treinador, curiosamente, foi justamente depois de ficar numericamente inferior que o Flamengo apresentou uma resposta competitiva melhor.
“Conseguimos ser melhores na partida quando estávamos com dez mais um.”
A declaração sintetiza boa parte da avaliação feita pelo português: o Flamengo esteve tecnicamente abaixo, perdeu duelos e encontrou dificuldades para executar seu jogo, mas respondeu quando a eliminatória atingiu seu momento mais delicado.
Entre a autocrítica e a classificação
A coletiva de Leonardo Jardim teve, portanto, dois movimentos bastante claros.
De um lado, o treinador não escondeu os problemas: admitiu que o Flamengo não fez um bom jogo, reconheceu que a escolha por Paquetá não entregou o resultado esperado e novamente apontou o gramado como obstáculo para a qualidade técnica da equipe.
Do outro, rejeitou qualquer interpretação de que a classificação deveria ser tratada como obrigação automática apenas pela vantagem construída em Quito.
A mensagem deixada por Jardim foi de que favoritismo precisa ser confirmado dentro de campo — e que, quando o Flamengo mais precisou competir, encontrou na arquibancada a força que faltava numericamente dentro das quatro linhas.
“Saiu Jorginho e entrou o 12º jogador.”
No fim de uma entrevista com críticas, explicações e reconhecimento dos próprios problemas, foi a torcida quem recebeu o maior elogio do treinador.
