Giannis Antetokounmpo salvou o Milwaukee Bucks. Com a saída dele, o que será da franquia?
Este texto começa no início do século. Na temporada 2000-01, o Milwaukee Bucks teve uma ressurgência. Depois de ficar mais de 10 anos sem vencer uma série de playoffs, a equipe conseguiu chegar nas finais de conferência daquela temporada. Liderados pelo jovem Ray Allen, um elenco de apoio com Sam Cassell e Glenn Robinson e comandados por George Karl, a equipe ficou muito próxima de enfrentar o Los Angeles Lakers nas finais.
No entanto, a aventura inesperada acabou após derrota no jogo 7 para o Philadelphia 76ers liderado pelo MVP da NBA, Allen Iverson. Torcedores mais velhos dos Bucks questionam o nível da arbitragem até hoje, mas a história foi escrita daquele jeito. Philly foi para a final, Iverson protagonizou um dos momentos mais marcantes da história do basquete e os Lakers foram campeões em cinco jogos.

A história do título de 2021 do Milwaukee Bucks começou bem antes da chegada do Grego, mas você vai me entender. Após a aventura nos playoffs, os Bucks vieram muito fortes para a temporada 01-02. A equipe adquiriu Anthony Mason e fez ótima temporada até março, quando o recorde de 35-25 parecia confirmar o time como favorito para a pós-temporada. No entanto, Milwaukee perdeu 16 dos últimos 22 jogos de temporada e caiu da terceira posição em março para fora dos playoffs (!!) em abril, com um recorde de 41-41. Este foi um dos maiores colapsos da história da NBA e fica até esquecido em relação a outras pipocadas que o basquete presenciou. Com esse tipo de fracasso, as coisas mudaram para muito pior.
No meio da temporada seguinte, os Bucks trocaram Ray Allen para o Seattle Supersonics, para avançar ainda mais no fim de uma era e condenar a equipe ao “tank”, termo usado para equipes fracas que não se importam em perder muito na temporada, a fim de conseguirem uma escolha alta no draft do ano seguinte. A equipe também perdeu Glenn Robinson, Sam Cassell e viu o técnico, que pediu para os três serem negociados, se demitir após a equipe enfraquecer com as negociações.
Mas tinha um problema nisso. Herb Kohl, dono dos Bucks, era um empresário local que se recusava a oferecer um time totalmente fraco para seus fãs assistirem. Mesmo sem peças suficientes, Milwaukee sempre fazia uma grande contratação (em termos de peso ou dinheiro) para tentar devolver o time aos playoffs.

Mesmo assim, o elenco não evitou temporada ruim em 2004-05, com apenas 30 vitórias e precisando focar no draft para conseguir um reconstrução. Mas, com muita sorte, os 6.3% de chance se transformaram na primeira escolha geral do draft após a loteria. O Milwaukee Bucks escolheu Andrew Bogut, pivô, por enxergar T.J. Ford como promissor na posição de armador. Isso fez a equipe perder a chance de escolher Deron Williams (3x all-star e bicampeão olímpico) e Chris Paul (12x all-star, dispensa apresentações).

O trem da sorte passou por Milwaukee e a equipe nem percebeu. Mas, de início as coisas melhoraram. Com Michael Redd e Bogut, a equipe voltou para os playoffs em 2005-06 e caiu de novo no primeiro round. A partir de 2006-07, uma sequência de três temporadas seguidas fora da pós-temporada, mas nunca em posição para uma escolha de draft boa. A equipe foi mudando, mas era sempre ruim demais para o topo e boa demais para o fundo.
Jogadores como Mo Williams, Jamaal Magloire, Richard Jefferson, Jerry Stackhouse, Monta Ellis, Stephen Jackson, Shaun Livingston e JJ Redick passaram pelos Bucks durante esses anos. Todos com alguma relevância, incluindo participações de all-star, mas sem surtirem os efeitos esperados.

Durante todo esse tempo, a torcida correu risco de perder o Milwaukee Bucks para investidores, que queriam tirar a equipe de uma cidade de apenas 500 mil habitantes. Ironicamente, quando Herb Kohl jogava contra o tank, ele também salvava a equipe de ser realocada para outro lugar.
E as coisas continuaram assim. Em 2012-13, a equipe chegou novamente aos playoffs e foi novamente chutada no primeiro round, perdendo para o futuro campeão Miami Heat. Na época, o principal jogador dos Bucks era o armador Brandon Jennings, que não expressou preocupação ao enfrentar o super time da Flórida, exclamando que os Bucks venceriam em seis jogos. A equipe acabou sendo varrida.
Após esse atropelo, a torcida não aguentou mais. Um grande outdoor foi colocado na entrada da cidade com a frase “Winning Takes Balls”, um trocadilho para relembrar que o Bucks precisava das bolinhas, aquelas da loteria do draft, para escolher um jogador que pudesse mudar a história da franquia. Aqui vem a ironia de toda a situação.

A temporada 2013-14 dos Bucks foi horrível. QUINZE vitórias e, finalmente, grandes chances de selecionar algum jogador de grande potencial no draft. Além de tudo, Herb Kohl vendeu a equipe e levou com ele qualquer esperança da equipe de se manter em Milwaukee. Se o time continuasse ruim, as ameaças de mudança para outra cidade ficariam cada vez maiores.
Milwaukee selecionou Jabari Parker, jogador de grande potencial mas que sofreu com lesões e não conseguiu atingir nada do que foi esperado para ele. Mas, a equipe que venceu apenas 15 jogos tinha um jogador selecionado no draft anterior, considerado um projeto de longo prazo. Ironicamente, com a 15ª escolha do draft de 2013, os Bucks escolheram Giannis Antetokounmpo. Após o draft, a equipe fez uma troca para adquirir uma escolha de segundo round totalmente desconhecida, um ala chamado Khris Middleton.

O grego evoluiu de maneira pacientemente, junto com a equipe. Middleton foi protagonista mais cedo, sendo um dos cestinhas da equipe que foi para os playoffs já em 2014-15. Antetokounmpo, que era um protótipo de jogador teve um desenvolvimento mais gradual e começou a ser reconhecido em 2017, quando recebeu o prêmio de Most Improved Player (Jogador de Maior Evolução).
No entanto, Giannis ultrapassou Middleton, Parker e quaisquer expectativas que existiam sobre ele, se tornando um dos melhores jogadores da liga, levando os Bucks a melhor campanha da temporada 2018-19 e recebendo o prêmio de MVP pela primeira vez, repetindo a dose na temporada seguinte.
Em 2021, juntos, Antetokounmpo e Middleton protagonizaram em todos os momentos e, 50 anos após o primeiro título da franquia, o Milwaukee Bucks era campeão novamente. Vencendo em seis jogos, como Brandon Jennings profetizou lá em 2013. Missão cumprida! Ironicamente, o tank que a torcida tanto pedia não surtiu nenhum efeito, mas o último momento de uma equipe que se recusava a perder ofereceu os dois personagens principais do título histórico de 2021.

Khris Middleton (fundo, boné para trás) foi o principal companheiro do grego, com grandes atuações contra Nets (2º round), Hawks (final do Leste) e médias de 24 pontos por jogo nas finais.
Os anos seguintes viram times do Milwaukee Bucks que eram bons, mas não conseguiram repetir o sucesso. A equipe adquiriu Damian Lillard em 2023, não conseguiu sucesso com ele e começou a caminhar para o rebuild. Middleton, histórico para a franquia foi trocado em 2025. Lillard foi trocado de volta para os Blazers meses depois e Antetokounmpo se viu sozinho, com cada vez mais boatos de troca.
O jogador relutou por abrir mão do lugar que transformou sua vida, mas a negociação era inevitável. No início desse mês, o Milwaukee Bucks negociou Giannis Antetokounmpo para o Miami Heat, encerrando uma história de 13 temporadas com a equipe. Uma história que daria um filme finalmente escreveu seu capítulo de encerramento, com um final menos feliz do que poderia se imaginar.

Agora, o Milwaukee Bucks não tem nada. O elenco atual da equipe tem uma série de desconhecidos que provavelmente serão liderados por jogadores envolvidos na troca, como Tyler Herro e Kel’el Ware.
Este texto pode envelhecer mal e os Bucks podem se recuperar rápido, mas o cenário não parece esse. Uma equipe que viu Kareem Abdul-Jabbar e Oscar Robertson vencerem, Sidney Moncrief liderar a equipe nos anos 80, Ray Allen chegar às finais de conferência em 2001, a recusa da equipe de tankar no resto da década de 2000 enquanto era liderada por Michael Redd para, finalmente ver Antetokounmpo e Middleton campeões em 2021, não tem mais nada para ver. Não há esperança.
Na minha opinião, o Milwaukee Bucks ficará pelo menos uns cinco anos fora dos playoffs. Equipes que pareciam ter projetos melhor de tank também ficaram presas em um limbo sem conseguir competir. Os Bucks não parecem ter nenhum futuro, quanto mais um presente. A equipe não pode mudar de cidade, por conta de um contrato firmado com a dona de sua arena, mas sabemos como os bastidores da NBA são sombrios e esse tipo de acordo pode ser facilmente quebrado. A ameaça de realocação sempre será existente para uma cidade de poucos habitantes.
Tudo que resta para o torcedor é, obviamente, torcer. Torcer para que os novos jogadores se encaixem bem e que a equipe volte para os playoffs de maneira rápida. Mas o abismo parece ser grande demais para o Milwaukee Bucks se recuperar. Mas a história recente da franquia foi baseada em ressurgir justamente da maneira que as pessoas menos esperam. A esperança sempre será a última a morrer.
