Bastidores do Botafogo: guerra interna impacta dentro e fora de campo
O Botafogo vive um momento delicado dentro e fora de campo na temporada 2026. Dentro das quatro linhas, a equipe ocupa a 18ª posição no Brasileirão, com apenas três pontos conquistados, aumentando a pressão sobre o trabalho do técnico Anselmi. Fora delas, a situação financeira e os conflitos internos aprofundam ainda mais o cenário de instabilidade.
Conflito entre SAF e clube social
Nos bastidores, a relação entre a SAF, comandada por John Textor, e o clube associativo vive mais um capítulo de tensão. O embate ganhou força após o aporte financeiro destinado ao pagamento do transfer ban envolvendo a dívida pela contratação de Thiago Almada.
Apesar de Textor ter garantido maioria no Conselho de Administração, Durcesio Mello, representante do associativo, optou por voto nulo na decisão.
O empréstimo firmado com os investidores GDA Luma Capital e Hutton Capital prevê a possibilidade de conversão da dívida em participação societária na SAF. No entanto, essa mudança depende da autorização do presidente do clube social, João Paulo Magalhães.
Até o momento, o dirigente não assinou o documento necessário. Ainda que Textor tenha conseguido receber a primeira parcela — no valor de US$ 25 milhões —, o montante foi tratado apenas como dívida, sem conversão em ações. A expectativa de assinatura “em breve”, sinalizada aos investidores, não se concretizou.
Mais de um mês após o aporte inicial, não há previsão para a formalização do acordo, o que travou a liberação da segunda parcela do empréstimo.
Impasse jurídico e resistência do associativo
O clube social alega que o modelo adotado por Textor — com juros elevados — pode representar uma tentativa de desvincular a SAF da estrutura da Eagle Football. Ainda assim, o associativo evita se envolver diretamente no litígio entre o empresário e a Ares, principal credora da rede multiclubes.
Além disso, investidores demonstram cautela em avançar no acordo para evitar conflitos com a própria Ares, com quem mantêm relações comerciais em outros mercados.
Uma decisão da Justiça do Rio, em julho de 2025, congelou as ações da Eagle, mantendo Textor no comando do Botafogo, mas impedindo mudanças na estrutura de poder. Como o clube associativo detém 10% da SAF, sua aprovação é obrigatória para a entrada de novos investidores.
Internamente, há o entendimento de que a assinatura do documento pode abrir margem para questionamentos judiciais e até anulação das mudanças societárias.
Paralelamente, o caso será analisado em arbitragem conduzida pela Fundação Getulio Vargas, que terá poder para definir os rumos da disputa.
Risco de novo transfer ban
Mesmo com o aporte, o Botafogo ainda não quitou integralmente a dívida com o Atlanta United e a Major League Soccer. O clube não pagou a segunda parcela do acordo dentro do prazo e solicitou extensão, alegando dificuldades operacionais.
O acordo previa o pagamento inicial de US$ 10 milhões, seguido de quatro parcelas de US$ 5 milhões. Como garantia, o clube ofereceu receitas, incluindo valores do patrocínio master da VBet.
Outro risco envolve uma dívida com o Zenit, referente à contratação de Artur, no valor aproximado de R$ 35 milhões. O clube pretende recorrer, mas pode sofrer novas sanções caso não efetue o pagamento.
Atrasos e tensão com o elenco
A crise financeira também impacta o ambiente interno. O Botafogo acumulou atrasos em obrigações trabalhistas, especialmente no pagamento de direitos de imagem dos jogadores.
Em um dos episódios, o atleta Danilo chegou a considerar acionar a Justiça para rescindir o contrato de forma unilateral. A situação levou o clube a regularizar parte dos débitos.
Atualmente, há um mês de atraso nos direitos de imagem, embora salários e FGTS estejam em dia. Um novo pagamento está previsto para esta sexta-feira, 20 de março.
Corte de gastos e reestruturação
Diante do cenário, o Botafogo iniciou um processo de redução de custos. Desde 2025, o clube já projetava uma diminuição de despesas para 2026, incluindo corte de até 30% na folha salarial do elenco.
Em fevereiro, a SAF promoveu demissões em diversos setores, atingindo áreas como o programa de sócio-torcedor e o departamento de futebol. Entre os desligados estão o auxiliar técnico Cláudio Caçapa e o coordenador de scout Raphael Rezende.
