Basquete

‘Golden State of Mind’: Warriors querem reinventar o ataque em 2026/27 para prolongar janela de Curry

“These streets will make you feel brand new”, canta Alicia Keys em ‘Empire State of Mind’, hit mundial de 2009 em parceria com Jay-Z. Em San Francisco, a temporada 2026/27 da NBA também começa com a promessa de uma versão ‘brand new’ da equipe sete vezes campeã da liga.

A tarefa do Golden State Warriors já é conhecida, mas fica cada vez mais urgente: encontrar uma forma de continuar competitivo enquanto aproveita os últimos anos de Stephen Curry no auge. Para isso, o técnico Steve Kerr prepara um ataque mais aberto, capaz de explorar ainda mais o espaço criado pelo maior arremessador da história da NBA. O problema é que esse novo ‘Golden State of Mind’ não depende apenas de uma mudança tática. A equipe também precisará superar as dúvidas sobre a saúde do elenco e renovar sua identidade sem se afastar das referências que construíram a dinastia.

Warriors precisam aproveitar os últimos anos do auge de Stephen Curry. (Reprodução: ABC7 News San Francisco)

A principal mudança aparece no ataque: Steve Kerr planeja ampliar o uso do sistema ‘5-out’, onde os cinco jogadores ocupam zonas abertas na quadra e ajudam a espaçar a defesa adversária. A ideia conversa bastante com o talento de Curry, mas também exige que todos os cinco atletas em quadra saibam arremessar de longa distância, consigam atacar as linhas de infiltração e tomem decisões rápidas. Depois de fechar a última campanha com 37 vitórias e 45 derrotas, a franquia tenta provar que a mudança tática pode recolocar os Warriors nos Playoffs.

O time ainda tem duas grandes questões para lidar durante a temporada: como o time vai conseguir preservar a saúde de Curry e Draymond Green ao longo da temporada; e quando o elenco poderá contar com Kristaps Porzingis. Embora a diretoria não tenha descartado um retorno durante a temporada, o pivô da Letônia está fora por tempo indeterminado por causa de um problema de saúde ainda não especificado. Isso sem contar a situação de Jimmy Butler, que deve retornar apenas no final da temporada regular após passar por uma cirurgia no joelho direito para reparar o rompimento do ligamento cruzado anterior (LCA) sofrido em janeiro de 2026.

Steve Kerr vai abrir ainda mais espaço para Curry

O sistema 5-out não é uma ruptura completa do que os Warriors já fizeram. Steve Kerr afirmou que a equipe já vinha se aproximando desse estilo de jogo há algum tempo, e que agora pretende explorá-lo com mais frequência. Com todos os jogadores posicionados para oferecer ameaça de fora, Golden State pode criar mais espaço para Curry se movimentar sem a bola e atacar defesas que tentem dobrar a marcação nele. Na prática, a ideia é simples: quanto mais difícil for para a defesa abandonar um jogador na linha de três, mais caro fica tentar tirar Curry da jogada.

Para isso dar certo, Green precisa ser uma ameaça confiável quando recebe a bola no perímetro. Se a defesa puder simplesmente ignorá-lo para fechar os espaços de Curry, o princípio básico do 5-out perde o sentido.

O técnico Steve Kerr, à esquerda, orienta Curry à beira da quadra. (foto: Noah Graham/AFP)

Esse é um dos pontos que podem definir o sucesso do novo ataque, porque apenas abrir a quadra não basta se os adversários forem capazes de ignorar alguns jogadores sem pagar por isso. Os Warriors precisarão combinar movimentação, arremessos consistentes e menos desperdícios de posse para evitar que o sistema se transforme em um ataque previsível demais.

Além disso, é necessário que a escolha dos titulares para a temporada acompanhe a consistência dos experientes. Curry e Green estão garantidos na formação inicial, mas Kerr deixou as outras três vagas em aberto durante o training camp. Isso dá a Gui Santos, Brandin Podziemski, Yaxel Lendeborg e outros jogadores da rotação uma oportunidade de mostrar como se encaixam ao lado dos veteranos.

Curry e Green precisam dividir a quadra com inteligência

Kerr indicou que pretende manter Curry e Green juntos pelo maior tempo possível em quadra, e a decisão tem uma justificativa técnica: a conexão entre os dois continua sendo um dos motores do ataque. Na última temporada, a dupla teve saldo positivo de 105 pontos em 889 minutos compartilhados, com rating ofensivo de 117.7 pontos a cada 100 posses. O dado ajuda a explicar por que o treinador não quer simplesmente separar os dois para administrar seus minutos: mesmo com a necessidade de descanso, Curry e Green continuam produzindo um ataque eficiente quando estão juntos.

Curry e Green são os únicos titulares incontestáveis dos Warriors para a temporada. (Sean Gardner/Getty Images)

Ainda assim, a ideia precisa conviver com a necessidade de administrar o desgaste. Curry chega à sua 18ª temporada na NBA, enquanto Green inicia sua 15ª. Os dois seguem como peças centrais do time, mas não será simples manter o mesmo nível físico durante uma campanha longa de 82 partidas, especialmente se o time voltar a depender da dupla para resolver a maioria das posses importantes.

Ou seja, a gestão de minutos não significa apenas tirar tempo de quadra dos veteranos. Golden State precisa encontrar períodos em que o ataque continue funcionando sem Curry e momentos em que Green possa descansar sem perder a organização defensiva. Se os ‘bancários’ não sustentarem essas sequências, a dupla poderá chegar aos jogos decisivos com uma carga excessiva de fadiga.

Gui Santos busca consolidar espaço nos Warriors

A última temporada foi a melhor da carreira de Gui Santos na NBA. O ala brasileiro disputou 68 jogos, começou 30 deles como titular e teve médias de 9.2 pontos, 3.9 rebotes e 2.3 assistências. Além dos números bastante honestos, ele também ganhou responsabilidades no time: na segunda metade do campeonato, Gui passou a conduzir mais posses e a tomar decisões com a bola nas mãos.

Mas como o crescimento também dói, ter mais a bola também trouxe erros, sobretudo quando precisou criar sob pressão. Para dar o próximo salto, o brasileiro precisará controlar melhor o ritmo das posses e escolher quando infiltrar, finalizar ou encontrar um companheiro. Ao mesmo tempo, ele terá também que seguir ampliando seu repertório ofensivo.

O brasileiro Gui Santos mira evolução em sua quarta temporada na NBA. (foto: Chris Coduto/Getty Images)

O problema para ele é que a chegada do calouro Yaxel Lendeborg aumenta a concorrência entre os alas, mas Gui se mostrou animado para definir seu lugar na rotação o quanto antes. Durante o Media Day, o brasileiro afirmou que está disposto a começar como titular ou sair do banco, desde que possa ajudar o time a vencer. A declaração combina com o momento de um elenco que ainda está testando combinações e procurando as melhores formas de encaixar seu novo ataque.

Entrando na sua quarta temporada na NBA, Gui já mostrou que pode oferecer energia, mobilidade e versatilidade, mas terá que manter a eficiência no perímetro e evitar que a pressão defensiva limite seu controle de bola. Se conseguir repetir a intensidade que o levou à titularidade e tomar decisões mais seguras com a bola, ele poderá ser útil em diferentes formações de Steve Kerr.

Para os Warriors, a evolução de Gui Santos também importa muito: quanto mais ele conseguir contribuir, menos a equipe precisará sobrecarregar seus veteranos ao longo da temporada.

Yaxel Lendeborg chega com expectativa e espaço para crescer

A maior novidade do elenco é o jovem Yaxel Lendeborg, selecionado na 11ª escolha do Draft de 2026. O ala-pivô foi eleito MVP da Summer League, na qual teve médias de 14.8 pontos, 6.8 rebotes e 4 assistências em seis jogos. Esse desempenho elevou a expectativa da franquia em torno de sua adaptação à NBA.

Lendeborg pode ajudar em diferentes áreas: ocupar espaço no perímetro, atacar a cesta e oferecer tamanho em uma equipe que frequentemente depende de formações mais baixas. Com Porzingis indisponível, a necessidade de minutos para os jogadores de garrafão também deve aumentar, mas ainda é cedo para definir o tamanho de seu papel na rotação de Golden State.

O calouro Yaxel Lendeborg foi eleito o MVP da Summer League, em julho. (foto: John Locher/AP Photo)

O grande desafio aqui é separar a empolgação do potencial de impacto imediato. A Summer League oferece sinais úteis, mas não reproduz a velocidade, a força física e o nível de leitura das partidas da temporada regular. Por isso, o desempenho de Lendeborg aumenta a expectativa, mas não responde a principal dúvida: quanto dessa produção poderá ser transportada para uma rotação de NBA? O calouro terá de provar que consegue manter sua versatilidade contra defesas mais preparadas e sem forçar jogadas.

Para os Warriors, Lendeborg representa uma chance de ganhar energia e profundidade sem depender exclusivamente dos veteranos. Já para o próprio jogador, o encaixe será mais simples se conseguir contribuir em jogadas sem a bola, defender mais de uma posição e aproveitar as oportunidades criadas pela atenção que Curry atrai.

A saúde de Porzingis muda o cenário do garrafão

A situação de Kristaps Porzingis é a maior incógnita deste começo de temporada. O pivô não viajou com a equipe para o training camp e está fora por tempo indeterminado. A causa específica não foi divulgada, e o gerente geral da franquia, Mike Dunleavy, disse que não há um prazo para o retorno.

Porzingis convive com problemas recorrentes de saúde e perdeu dezenas de jogos nas últimas temporadas.
(foto: Rocky Widner/NBAE via Getty Images)

Em condições de jogo, Porzingis oferece um perfil que combina com o novo ataque: tamanho, arremesso de longa distância e capacidade de finalizar perto da cesta. A presença do letão permitiria aos Warriors espaçar a quadra sem abrir mão de um pivô alto. Mas a equipe ainda não sabe quando poderá contar com ele, e sua disponibilidade já é considerada uma preocupação há algumas temporadas.

Com isso, o veterano Al Horford e o novato Yaxel Lendeborg podem ganhar importância enquanto ele estiver afastado. Isso aumenta a pressão sobre a rotação interna e torna a saúde do elenco ainda mais central para as projeções de sucesso dos Warriors. A equipe não precisa apenas implementar um sistema novo, e sim colocar em quadra as peças que tornam esse sistema viável por tempo suficiente. É aí que a indefinição da situação de Porzingis passa a afetar diretamente o plano de jogo de Kerr.

Os Warriors podem voltar a competir no Oeste?

Golden State chega à temporada 2026/27 sem o status de candidato incontestável ao título que teve durante seus anos de dinastia, mas ainda tem Curry, Green e Kerr para dar uma ‘cara’ ao projeto. A equipe aposta que um ataque mais espaçado, maior participação do elenco de apoio e a contribuição de Lendeborg podem ajudar a recuperar terreno depois de uma campanha irregular no último ano.

O cenário mais otimista depende de vários fatores ao mesmo tempo: Curry precisa permanecer saudável pelo máximo de tempo possível, Green precisa sustentar seu impacto nos dois lados da quadra, o novo sistema 5-out precisa produzir bons arremessos e Porzingis precisa voltar a jogar. Também será necessário que os jovens aproveitem as oportunidades para aliviar a carga dos veteranos, já que Jimmy Butler só deve retornar em meados de 2027.

Warriors não contarão com Jimmy Butler em boa parte da temporada. (foto: Nathaniel S. Butler/NBAE via Getty Images)

A questão é que essas são muitas variáveis para um time que terminou abaixo de 50% de aproveitamento na temporada passada. Por isso, é mais prudente tratar os Warriors como um time que busca um caminho de volta aos Playoffs do que como um candidato consolidado. A temporada vai mostrar se a nova versão do ataque consegue prolongar a janela de Curry ou se as limitações físicas e de elenco continuarão falando mais alto.

Neste momento, Curry segue como o grande motivo para acreditar. O potencial de Lendeborg e as evoluções de Gui Santos e Brandin Podziemski podem ajudar a conectar essas peças. Mas a questão central não é se os Warriors vão conseguir jogar diferente, e sim se conseguem jogar diferente sem exigir de Curry e Green mais do que seus corpos podem entregar. Se o novo ataque corresponder às expectativas, Golden State pode voltar a incomodar no Oeste. Caso contrário, a janela de Curry continuará aberta, mas cada vez mais difícil de atravessar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *