Em um cenário de dúvidas, oscilações e falta de criatividade na Seleção Brasileira, um nome segue inevitável: Neymar da Silva Santos Junior
Criticado, questionado e muitas vezes subestimado, Neymar vive um momento de reconstrução física e reafirmação técnica. Mas os sinais apontam na mesma direção: ignorá-lo na Copa do Mundo pode ser um erro histórico.
O talento que o Brasil ainda não conseguiu substituir
Há uma verdade incômoda no futebol brasileiro atual:
o país não produziu, até agora, outro jogador com o pacote completo de Neymar Jr.
Com 34 anos de idade, ele nunca teve um jogador que ao menos se igualasse às suas características; ele é organizador, finalizador, driblador, criador de jogadas sob pressão. Enquanto outros atacantes da Seleção Brasileira brilham em velocidade ou finalização, Neymar continua sendo o único capaz de controlar um jogo ofensivo, demonstrando inteligência técnica em seus passes, visão de jogo que poucos têm, mas não sendo ajudado pelo elenco inferior do Santos FC, seu atual clube.
Em um futebol mecânico, previsível e tático, ainda existe espaço para o improvável; e no Brasil, esse improvável ainda tem nome: Neymar Jr.
Enquanto a Seleção Brasileira busca identidade, criatividade e protagonismo, Neymar ressurge no Santos como um lembrete incômodo e poderoso de tudo aquilo que o Brasil perdeu… e ainda pode recuperar.
Muito se fala do atual Neymar:
“Nesse ritmo ele não aguenta uma França ou uma Espanha na Copa do Mundo”
Será Mesmo? muitos não conseguem entender a diferença que faz um jogador tão inteligente e técnico ter recursos disponíveis ao seu redor. Um simples companheiro de equipe que entenda suas jogadas pode ditar o ritmo.
Hoje, Neymar tem desempenho regular, mas muito disso passa pela questão técnica do time do Santos. Sem recursos, o jogador se sobrecarrega, entendendo que, com essa idade, ele não suporta mais a carga de carregar um time sozinho nas costas. Mas, tendo uma equipe coletiva, ele fará sim a diferença em campo.
Veja alguns lances de Neymar, que foram arruinados pela falta da mesma inteligência técnica de seus companheiros:

A imagem acima retrata o recente jogo do Santos, nesta terça-feira (28), diante do San Lorenzo, pela terceira rodada da Copa Sul-Americana.
Na imagem, vemos uma das jogadas mais comuns de Neymar no elenco do Santos:
ele recebe no meio, com qualidade se livra do marcador e puxa cinco jogadores adversários para sua marcação, deixando Gabriel Barbosa livre pela esquerda.
Esse poder de atrair a marcação deixa outros atletas em boas condições.
Com uma excelente visão de jogo, ele deixa Gabigol praticamente cara a cara com o goleiro, mas o jogador não concluiu a jogada, devolvendo um passe ruim para Neymar.
Agora, colocando no cenário atual, imagine se esse jogador em liberdade fosse Vinícius Júnior, hoje o ponta esquerda da Seleção.
Seria mais uma assistência brilhante para o jogador de 34 anos, não é?
O Neymar técnico serve, mas com jogadores que compartilham da sua inteligência.
E hoje, a Seleção Brasileira pode ser exatamente o fator que ajude nessa leitura de jogo dele.

Ainda sobre esse jogo, mais um exemplo de jogada:
Neymar Jr. desarma o adversário pela esquerda, onde busca criar uma jogada promissora de ataque.
Ele aciona Benjamín Rollheiser e logo sai para receber de volta. A devolução do passe o deixaria muito bem posicionado para concluir a jogada dentro da área.
Mas, correndo junto com ele, Escobar acaba se chocando na jogada e atrapalha completamente a sequência do lance.
Mais uma vez, uma construção inteligente que se perde no detalhe.
Mais uma vez, uma leitura acima da média que não se transforma em resultado.

O roteiro se repete. Um dos jogos em que ele mais foi criticado, inclusive por sair irado e chateado de campo, foi no confronto pela segunda rodada da Copa Sul-Americana, no dia 14 de abril, quando o Santos empatou em 1 a 1 com o Deportivo Recoleta, oitavo colocado do campeonato paraguaio
Irritações que fazem sentido. Irritações que mostram o quanto ele ainda se importa.
Em um lance específico e eu poderia fazer 50 parágrafos desta matéria só sobre isso, Neymar. recebe um passe com a bola no alto pelo meio.
E aí acontece o que poucos fazem.
Ele enxerga a movimentação de Gabriel Barbosa e, de primeira, sem sequer dominar, executa o passe na medida, deixando o companheiro completamente na cara do gol.
Um lance de leitura rápida, inteligência e execução perfeita.
E mais uma vez…
menos uma assistência para o inteligente Neymar.
Agora fica a pergunta:
E se esse passe fosse para Endrick?
Ou para Igor Thiago, hoje um dos artilheiros da Premier League e cotado como um dos principais centroavantes brasileiros?
Ou, indo além, qualquer outro jogador em alto nível que atua na Seleção Brasileira?
O resultado provavelmente seria outro.
Seria mais uma assistência.
Mais uma estatística.
Mais um reconhecimento.
Mas, acima de tudo, seria mais uma prova daquilo que muitos ainda insistem em ignorar:
A visão de jogo de Neymar continua no mais alto nível.
O problema nunca foi ele.
Os números não mentem
E quando os lances se repetem, os números confirmam.
Mesmo em um cenário limitado no Santos , Neymar Jr. segue produzindol:
- 36 jogos
- 15 gols
- 7 assistências
- média de 2,8 passes decisivos por jogo
- 100 grandes chances criadas
E é aqui que o debate precisa parar.
100 grandes chances criadas.
Não é um número comum.
Não é um número “bom”.
É um absurdo.
É o tipo de estatística que define um jogador que pensa o jogo acima dos demais.
Porque criar 100 grandes chances não é sorte.
Não é acaso.
É repetição.
É leitura.
É inteligência.
E aqui entra a pergunta que incomoda:
Quantas dessas chances viraram gol?
Quantas viraram assistência?
Quantas simplesmente se perderam?
Porque, se convertidas, estaríamos falando de números ainda mais impactantes, e de uma narrativa completamente diferente sobre Neymar.
No fim, esse dado revela mais do que qualquer crítica.
Revela que Neymar continua sendo o jogador que cria.
Que enxerga.
Que coloca companheiros em condição de decidir.
Mesmo quando o resultado final não aparece.
O peso de Neymar na Seleção Brasileira
Os números ajudam a sustentar o argumento de que a Seleção Brasileira apresenta melhores resultados com Neymar Jr. em campo. Mas eles também precisam ser interpretados dentro do contexto.
Com Neymar em campo, a Seleção registra cerca de 72% de aproveitamento. Sem ele, esse número cai para 55%. A taxa de derrotas também aumenta: 21% sem o jogador, contra 9% quando ele está disponível.
Desde a lesão em outubro de 2023, a Seleção Brasileira vive um período de instabilidade. O ciclo recente foi marcado pela pior campanha da história das Eliminatórias para a Copa do Mundo, além de desempenho irregular, eliminação nos pênaltis na Copa América e péssimas atuações no período.
O problema nunca foi criar
Esse dado muda completamente a forma como essa discussão precisa ser conduzida.
O futebol não é apenas sobre quem finaliza, mas, principalmente, sobre quem constrói. E, hoje, o Brasil carece exatamente disso.
A Seleção Brasileira tem velocidade, força e nomes consolidados, mas ainda sente falta de um jogador que organize o jogo sob pressão, que enxergue movimentos antes deles acontecerem e que transforme jogadas comuns em oportunidades reais.
Neymar continua sendo esse jogador.
Copa do Mundo se decide no detalhe
Em uma Copa do Mundo, não é o volume que define o resultado. É o detalhe.
O passe que quebra linhas.
O drible que desmonta uma defesa.
A decisão em um espaço mínimo.
E os exemplos apresentados ao longo da matéria mostram exatamente isso: mesmo em um contexto desfavorável, Neymar continua criando esse tipo de lance.
Agora, inserido em um cenário diferente, com jogadores que acompanhem sua leitura e consigam transformar suas jogadas em gols, o impacto tende a ser outro.
O jogador que o Brasil ainda precisa
A discussão, portanto, não deveria girar em torno de quanto Neymar ainda pode correr ou suportar fisicamente.
Ela deveria focar no que ele ainda entrega.
E o que ele entrega é raro.
O Brasil evoluiu em intensidade e velocidade, mas ainda não encontrou um jogador com a capacidade de pensar o jogo no nível de Neymar. E esse tipo de talento não surge com frequência, nem é facilmente substituível.
A pergunta inevitável
Diante disso, a questão se torna simples.
O Brasil pode realmente abrir mão de um jogador que criou 100 grandes chances, mesmo atuando em um contexto limitado?
Porque, no fim, a discussão não é sobre o que Neymar já foi.
É sobre o que ele ainda é.
E o que ele ainda faz em campo.
