Sem Andreas Pereira, como eu escalaria o Palmeiras contra o Cerro Porteño?
O Palmeiras terá uma baixa importante para o jogo de volta contra o Cerro Porteño, pelas oitavas de final da Libertadores. Andreas Pereira está suspenso após receber o cartão vermelho na partida de ida, no empate por 1 a 1 no Nubank Parque. O meio-campista foi expulso aos 27 minutos do segundo tempo após atingir o braço de um adversário em um lance que gerou bastante discussão.
A ausência pesa principalmente porque Andreas vinha sendo uma das peças importantes do meio-campo alviverde. Mas, ao mesmo tempo, pode representar uma oportunidade para Abel Ferreira mudar a estrutura que vem sendo questionada nas últimas partidas e buscar uma alternativa que o torcedor conhece muito bem.
Uma oportunidade para resgatar o Palmeiras de 2022
Na minha visão, a ausência de Andreas é uma boa oportunidade para Abel tentar recuperar alguns conceitos do Palmeiras campeão brasileiro de 2022.
Naquele time, o desenho mais recorrente era o 4-2-3-1, com Weverton; Marcos Rocha, Gustavo Gómez, Murilo e Piquerez; Danilo e Zé Rafael; Gustavo Scarpa, Raphael Veiga e Dudu; Rony.
Mas o mais importante não era simplesmente o desenho no papel. O Palmeiras de 2022 tinha mecanismos muito bem definidos. Com a bola, a equipe frequentemente construía com três jogadores na primeira linha, enquanto os laterais e os meias ocupavam diferentes alturas do campo. A saída com três defensores era uma das principais características do time de Abel.
Por isso, minha ideia para o jogo contra o Cerro seria utilizar uma estrutura semelhante, mas adaptada às características do elenco atual.
Carlos Miguel; Giay, Gustavo Gómez, Alexander Barboza e Piquerez; Marlon Freitas e Emiliano Martínez; Allan, Maurício e John Arias; Flaco López.
A ideia seria ter um 4-2-3-1 sem a bola, mas transformar a equipe durante a construção ofensiva.
Uma saída de três com Gómez, Barboza e Piquerez
Um dos primeiros ajustes seria na saída de bola. O Palmeiras poderia utilizar Gustavo Gómez, Alexander Barboza e Piquerez como os três jogadores responsáveis pela primeira fase de construção. Não significa necessariamente que Piquerez ficaria permanentemente como zagueiro, mas que o uruguaio poderia fechar por dentro enquanto o time tivesse a posse. Essa dinâmica permitiria liberar outros jogadores para ocuparem posições mais avançadas.
E aqui entra uma escolha que considero importante: Barboza no lugar de Murilo.
Murilo continua sendo uma opção importante e conhece muito bem os mecanismos da equipe, mas não vive seu melhor momento defensivamente. Barboza, apesar de ainda estar construindo sua história no Palmeiras, pode oferecer uma característica interessante para esse jogo: mais segurança nos duelos e presença física para enfrentar um Cerro Porteño que certamente tentará explorar bolas longas e transições.
Arias pode assumir o papel que Scarpa exercia
Com Piquerez participando da construção, John Arias poderia ocupar uma faixa mais avançada pelo lado esquerdo. É aqui que aparece uma comparação interessante com Gustavo Scarpa.
Obviamente, são jogadores diferentes, mas ambos possuem qualidade técnica, capacidade de cruzamento, boa bola parada e capacidade de participar da construção ofensiva. Scarpa tinha liberdade para se aproximar do centro, enquanto Piquerez dava amplitude pelo lado.
Arias poderia fazer algo semelhante. O colombiano teria liberdade para receber entre as linhas, aproximar-se de Maurício e também atacar a área quando a jogada fosse construída pelo lado oposto.
Isso também ajudaria a tirar um pouco da responsabilidade criativa do meio-campo.
Marlon Freitas como o novo Zé Rafael
Naquela equipe de 2022, Zé Rafael era muito mais do que um volante de marcação.
Ele ajudava na saída de bola, dava sustentação à posse, participava da pressão após a perda e tinha liberdade para avançar quando a jogada permitia. Hoje, vejo Marlon Freitas como o jogador mais próximo para exercer essa função.
O volante tem qualidade no passe e capacidade para organizar a saída desde trás. Não possui exatamente o mesmo perfil físico de Zé Rafael, principalmente na intensidade da pressão, mas pode compensar isso com posicionamento e qualidade técnica.
A ideia seria fazer dele o jogador responsável por conectar defesa e ataque.
Emiliano Martínez como o “cão de caça”
Ao lado de Marlon, colocaria Emiliano Martínez. Se Marlon seria o responsável por organizar, Martínez teria uma função mais agressiva.
Naquele Palmeiras, Danilo era fundamental justamente por conseguir ocupar praticamente todos os setores do campo. Era um jogador de muita intensidade, capaz de pressionar, recuperar a bola e imediatamente dar continuidade à jogada.
O elenco atual não possui um jogador exatamente igual a Danilo. Por isso, Martínez teria que assumir essa função da maneira mais próxima possível: pressionar, encurtar espaços, atacar o portador da bola e recuperar a posse.
Seria uma função que exigiria muito fisicamente, mas que poderia ajudar o Palmeiras a recuperar uma característica que perdeu em alguns momentos: a capacidade de pressionar o adversário imediatamente após perder a bola.
Allan com liberdade para atacar
Pela direita, minha escolha seria Allan. A ideia seria dar ao atacante liberdade semelhante à que Dudu tinha naquele Palmeiras.
Allan é um jogador de velocidade, bom no um contra um e capaz de receber aberto ou conduzir para dentro. Por isso, não vejo sentido em prendê-lo excessivamente a uma função defensiva.
Para compensar isso, Giay teria uma função importante. O lateral poderia dar amplitude quando necessário e, principalmente, fazer a cobertura de Allan quando o atacante estivesse mais adiantado.
Isso permitiria ao brasileiro jogar mais próximo da área adversária e aproveitar uma de suas principais virtudes: o poder de desequilíbrio individual.
Maurício no lugar de Veiga
No centro da segunda linha, colocaria Maurício. É provavelmente o jogador do elenco que mais se aproxima de algumas características que fizeram Raphael Veiga ser tão importante naquele Palmeiras.
Maurício tem qualidade técnica, consegue jogar entre as linhas e, principalmente, possui uma característica que pode ser decisiva contra o Cerro: atacar a área.
Veiga foi extremamente decisivo durante seu auge no Palmeiras justamente por saber aparecer na área no momento certo.
Maurício já demonstrou essa capacidade. Com Arias e Allan ocupando os lados e Flaco López movimentando-se na frente, o meia teria espaço para infiltrar e aparecer como elemento surpresa.
E esse pode ser um dos caminhos para o Palmeiras atacar uma defesa que certamente tentará jogar mais compacta.
Flaco López como referência
Na frente, manteria Flaco López. O argentino não possui a mesma velocidade de Rony, mas existem algumas semelhanças interessantes na forma como pode participar do modelo.
Flaco não precisa ficar parado entre os zagueiros. Ele pode sair da área, aproximar-se dos meias e abrir espaços para as infiltrações de Arias, Allan e Maurício.
Além disso, existe uma vantagem importante: o jogo aéreo. Se o Palmeiras conseguir pressionar o Cerro e recuperar a bola no campo ofensivo, terá condições de atacar pelos lados. E, nesse cenário, Flaco pode ser uma referência muito perigosa dentro da área.
A movimentação dele também pode criar exatamente os espaços que Maurício precisa para chegar de trás.
Por que essa formação pode funcionar?
O principal objetivo não seria simplesmente copiar o Palmeiras de 2022.
Seria recuperar alguns dos conceitos daquele time. A equipe de 2022 tinha uma característica que parece ter desaparecido em alguns momentos do Palmeiras atual: segurança para circular a bola, ocupar os espaços e, principalmente, saber exatamente o que fazer depois de recuperar ou perder a posse.
O próprio estudo tático daquele Palmeiras mostra que a equipe variava bastante a estrutura, construindo muitas vezes com três jogadores atrás e criando superioridade numérica em diferentes setores.
Contra o Cerro Porteño, isso pode ser ainda mais importante. O primeiro jogo terminou 1 a 1, e o Palmeiras terá que jogar em Assunção para buscar a classificação. No primeiro confronto, o Verdão teve 20 finalizações, mas voltou a apresentar dificuldades para transformar volume em gols.
Além disso, o time precisa evitar justamente aquilo que aconteceu na partida de ida: perder a organização quando não consegue recuperar a bola rapidamente. Mais do que uma mudança de esquema, uma tentativa de recuperar identidade
