Cuca volta ao Santos: solução imediata ou repetição de um roteiro já conhecido?
Treinador assume após queda de Vojvoda e chega para sua quarta passagem com a missão de dar resposta rápida em mais uma aposta da diretoria por um caminho curto diante da pressão.
O Santos anunciou nesta quinta-feira a contratação de Cuca como novo treinador até o fim da temporada. Aos 62 anos, ele substitui Juan Pablo Vojvoda, demitido após a derrota lastimável para o Internacional (2 a 1 para o Colorado), e provavelmente o novo treinador deve estar à beira do campo no duelo contra o Cruzeiro, no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro.
A escolha não surpreende o torcedor santista e talvez esse seja justamente o problema. Em vez de apostar em construção, o Santos recorre mais uma vez a um nome conhecido, que se julga experiente e talvez capaz de dar uma resposta rápida. É uma decisão que revela um clube pressionado, que pensa no agora.
Mas também levanta uma dúvida inevitável: até quando o Santos vai trocar o rumo sem, de fato, definir um caminho? Está claro que o problema não é só técnico e tático, é estrutural, é organizacional.
A diretoria, liderada por Marcelo Teixeira, acelera a troca com um objetivo claro: ter um treinador que não precise de muita adaptação. Cuca chega exatamente com esse perfil: ele é alguém que conhece o clube, o ambiente e o peso da camisa. Infelizemente, é o tipo de escolha comum no futebol brasileiro, onde a urgência costuma vencer o planejamento.
E não é por acaso que o nome dele sempre volta ao radar. Alexi Stival, nascido em 7 de junho de 1963, em Curitiba, construiu um currículo que sustenta esse status de “solução confiável”. Ao lado de Luiz Felipe Scolari e Abel Ferreira, está entre os poucos técnicos a conquistar a chamada tríplice coroa por um clube brasileiro (Libertadores, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil) feito alcançado com o Atlético-MG, com os títulos continentais de 2013 e a dobradinha nacional em 2021. Mas esse que é o X da questão, o último grande trabalho de Alexi, foi em 2021. Será que conseguirá reencontrar um bom futebol com esse time do Santos?
Apesar disso sua trajetória acumula conquistas relevantes: títulos estaduais por clubes como Botafogo, Flamengo, Cruzeiro e Atlético-MG, o Campeonato Brasileiro com o Palmeiras em 2016 e troféus no futebol chinês com o Shandong Luneng. Individualmente, foi eleito melhor técnico do Brasileirão em 2016 e 2021, além de receber prêmios como a Bola de Prata.
Mas o ponto central não está na prateleira de troféus e sim no padrão da carreira. Cuca é um treinador de picos altos, capaz de montar equipes competitivas e responder rapidamente em cenários de pressão. Por outro lado, também carrega um histórico de ciclos curtos e oscilações. É o tipo de técnico que resolve o presente, mas raramente constrói o futuro e deixa sérias marcas aonde passa.
No Santos, esse roteiro já foi visto antes. Em 2008, não conseguiu evitar o momento turbulento e deixou o clube com a equipe ainda ameaçada. Em 2018, assumiu um time em crise e levou a um meio de tabela seguro. Já em 2020, viveu sua melhor passagem: organizou uma equipe competitiva e levou o clube à final da Libertadores, sendo vice-campeão após derrota para o Palmeiras. Alguns jogadores que estão hoje nesse time apático foram muito bem no comando de Cuca, entre eles Luan Peres e Lucas Verissímo.
Fora das quatro linhas, sua chegada também não passa ilesa. O histórico envolvendo condenação à revelia em um caso ocorrido na Suíça, em 1989, ainda gera resistência entre parte da torcida. O clube sabe disso e, mesmo assim, opta por seguir com a contratação, assumindo o desgaste em nome da necessidade esportiva. Nas redes sociais muitas críticas a diretoria por essa escolha, poucos torcedores estão satisfeitos.
O problema é que o contexto do Santos vai além de um treinador. Desde 2024, a gestão de Marcelo Teixeira já passou por diferentes perfis, como Fábio Carille, Pedro Caixinha, Cléber Xavier e o próprio Vojvoda, sem consolidar uma identidade clara de jogo ou um projeto duradouro. A troca constante virou padrão, e nesse caso um péssimo padrão.
Dentro de campo, a expectativa é clara: um time mais organizado, competitivo e menos vulnerável. Cuca tende a entregar isso. A questão é o que vem depois.
Porque, no fim, a contratação não responde à pergunta mais importante: o Santos quer apenas estabilizar o momento ou voltar a ser protagonista de verdade?
