Confut Sudamericana 2026: saiba os principais pontos debatidos no maior evento da indústria do futebol na América do Sul
O futebol está evoluindo a cada dia, e uma boa parte das transformações mais importantes não acontece dentro das quatro linhas. Tecnologia, dados, arbitragem, formação de atletas, modelos de gestão, experiência do torcedor e até a qualidade do gramado passaram a fazer parte de uma indústria cada vez mais complexa. É justamente por isso que, para entender para onde o futebol está caminhando, também é preciso olhar para tudo aquilo que acontece longe dos gramados.
Entre os dias 8 e 10 de setembro, a Confut Sudamericana 2026 reuniu no hotel Grand Hyatt, no Rio de Janeiro, dirigentes, executivos, empresas de tecnologia, profissionais do futebol, comunicadores, ex-jogadores e especialistas de diferentes áreas da indústria do futebol. Durante os três dias, foram discutidos caminhos para tornar o futebol cada vez mais competitivo, sustentável, inovador e global, temas que já fazem parte da rotina dos grandes clubes, mas que ainda parecem distantes da realidade de boa parte dos torcedores.
Ao longo de todo o evento, o PORTAL DA LIGA acompanhou de perto os debates e conversou exclusivamente com nomes importantes que fizeram parte da programação. Entre eles, a presidente do Palmeiras, Leila Pereira; o ex-jogador e atual membro da comissão de base do Santos, Elano; o ex-árbitro FIFA Sálvio Spínola; e o diretor de arbitragem da CBF, Netto Góes.
Tecnologia já não é futuro do futebol, e sim o presente
Um dos assuntos mais presentes na Confut Sudamericana 2026 foi a implementação de novas tecnologias. Ela apareceu no scouting, na análise de desempenho do elenco, na gestão de clubes, na experiência do torcedor nos estádios e, naturalmente, na arbitragem.
No futebol moderno, ter um grande banco de dados e fazer uma boa análise já não são apenas diferenciais. O verdadeiro desafio está em interpretar essas informações e transformá-las em decisões capazes de melhorar o desempenho.
Mas as discussões mais interessantes do evento levantaram uma questão fundamental: como transformar tecnologia em decisões melhores?

(foto: Everton Machado/Foco Radical/Divulgação Confut)
Tecnologia aumenta a precisão da arbitragem, mas não elimina o fator humano
Não é novidade para ninguém que, se existe uma área em que a tecnologia já mudou completamente a experiência da torcida e da dinâmica do jogo, essa área é a arbitragem. O uso do VAR, a comunicação entre árbitros e outros recursos tecnológicos já fazem parte do futebol, mas agora, o próximo grande passo discutido no Brasil é a ampliação do impedimento semiautomático.
O impedimento semiautomático já é utilizado em grandes competições internacionais e passou a fazer parte da realidade do Campeonato Brasileiro em 2026. A implementação da tecnologia nos estádios da Série A, no entanto, envolveu uma série de desafios técnicos e operacionais.
“Concluímos no final deste primeiro semestre (de 2026) a instalação da tecnologia do impedimento semiautomático nos 19 estádios que recebem jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. Com todos ajustes realizados, com toda a tecnologia do VAR e do semiautomático integradas, com os profissionais da arbitragem treinados e orientados, visamos uma arbitragem mais justa e precisa. Queremos ser referência de arbitragem no continente. O próximo desafio é instalar o equipamento também nos estádios da Série B”, disse Netto Góes, Diretor de Arbitragem da CBF, em entrevista exclusiva ao Portal da Liga.
E aqui existe uma outra questão, que vai além da tecnologia: o Futebol Brasileiro não precisa apenas implementar ferramentas mais modernas para auxiliar a arbitragem. É preciso também criar condições para que elas funcionem de maneira consistente em diferentes estádios e competições, com critérios bem definidos para as decisões.
Para o ex-árbitro FIFA Sálvio Spínola, por mais que a tecnologia auxilie o trabalho, a falta de profissionalização da arbitragem e a ausência de uma formação centralizada pela CBF ainda são obstáculos para uma arbitragem mais consistente no Brasil.
“A formação dos árbitros no Brasil é uma questão que, mesmo com tecnologia, ainda não se resolveu. Não adianta tecnologia se a matéria-prima não é boa. É fundamental uma mudança profunda na estrutura das escolas de arbitragem, e a CBF passar a formar árbitros, já que é a única confederação no mundo que não forma árbitro. Quem forma são as 27 federações, cada uma com a sua escola independente. Esse jogo precisa mudar!”, afirmou Sálvio, com exclusividade ao Portal da Liga.
Em outras palavras: modernizar a arbitragem não significa apenas comprar tecnologia. Significa criar uma estrutura com critérios rigorosos para sustentá-la.

(foto: Bruno Freittas/Portal da Liga)
Formação de atletas vai muito além do talento dentro de campo
Um dos temas mais discutidos na Confut 2026 foi a formação de atletas. O debate passou por scouting, preparação, desenvolvimento e transição para o futebol profissional, mas uma das reflexões mais interessantes veio de quem viveu esse processo dos dois lados: o ex-jogador de Santos, Flamengo, Grêmio, Manchester City e Seleção Brasileira, Elano.
Elano participou de um dos painéis sobre formação de atletas e falou sobre as principais características que um jovem atleta precisa desenvolver para chegar ao futebol profissional mais preparado.
“Quando você trabalha num esporte coletivo com o futebol, você precisa SER um atleta coletivo. Muitas vezes, o jogador já é craque na base e, às vezes, isso o torna individualista. Mas isso não traz benefício algum. Quando se está em um time, às vezes é preciso abrir mão de alguns caprichos pelo bem da equipe, como dar um passe a mais que o atleta não queria dar, ou correr pra salvar um gol por conta de um erro individual de um amigo, e por aí vai. Criar essa cultura de coletividade é fundamental, e aí seus talentos individuais vão se evidenciar por consequência”, afirmou Elano, com exclusividade ao Portal da Liga.
A declaração ajuda a colocar em perspectiva uma questão que muitas vezes fica esquecida quando se fala em categorias de base: formar um jogador não significa apenas desenvolver sua capacidade técnica, porque o futebol profissional exige adaptação, disciplina, inteligência, preparação emocional e capacidade de lidar com pressão. Quanto mais cedo os jogadores entram em um mercado global, maior é a necessidade de uma formação que começa além do campo.

(foto: Bruno Freittas/Portal da Liga)
SAFs: investimento financeiro não resolve tudo
O crescimento das SAFs no Brasil trouxe novos investimentos para os clubes, mas também colocou em evidência outros desafios, como profissionalização, sustentabilidade financeira, resultados esportivos e relação com o torcedor.
Durante o evento, o Portal da Liga questionou os diretores de futebol do Fortaleza E.C. e do Athletic Club sobre os desafios de administrar clubes dentro desse novo cenário e como conquistar sucesso dentro e fora de campo sem que se perca a identificação com o torcedor.
“É claro que queremos ter sucesso em campo e conquistar títulos pro nosso torcedor. Sem o torcedor, nós nem estaríamos aqui. Mas também temos metas financeiras para bater e prestar contas aos nossos investidores. Por isso, muitas vezes, precisamos realizar a venda de um atleta que não queríamos vender, por exemplo. O meu trabalho é justamente montar uma equipe que nos renda triunfos em campo e renda fora dele”, explicou Pedro Martins, Diretor Geral do Fortaleza, durante o painel.
“Precisamos também respeitar nosso torcedor durante o processo de se tornar SAF. Não queremos jamais perder nossa identificação e nossa relação com a torcida, que é a base de tudo. Não podemos desrespeitar o escudo, as cores e toda a identidade do clube que adquirimos. Quando se faz uma mudança grande, precisamos indicar uma equipe de transição para que a cartilha seja seguida. Porque o grande patrimônio de um clube não é só o dinheiro, é também a paixão”, concluiu Rodolfo Canavesi, Diretor Geral do Athletic Club, clube mineiro que atualmente joga a Série B do Campeonato Brasileiro.
O ponto central é que uma SAF não pode ser resumida ao aporte financeiro, já que o dinheiro pode até comprar jogadores, mas não necessariamente compra um bom planejamento. A sustentabilidade de um projeto depende de estrutura, formação, análise de mercado, controle financeiro, capacidade de criar receitas recorrentes e, sobretudo, transparência.

(foto: Bruno Freittas/Portal da Liga)
Leila Pereira questiona modelo associativo e fala sobre gestão
A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, também esteve na ConFut 2026 e participou das discussões sobre os desafios de gestão de um clube associativo e a competitividade no futebol brasileiro.
“Falta credibilidade ao Futebol Brasileiro. Não quero citar o nome de nenhum clube, mas existem clubes no Brasil enormes, gigantes, completamente destroçados. Gestores que colocaram a saúde da instituição em risco em troca de um troféu. Isso é um absurdo, é uma irresponsabilidade! É por isso que eu tenho certeza que esse modelo associativo está em completa decadência. Porque esses presidentes fazem qualquer coisa pelo voto. Não interessa qual é o interesse da instituição, do torcedor, eles querem se manter no cargo. Esse modelo está fracassado e falido”, desabafou a mandatária do Palmeiras.

(foto: Igor Reis/Lance!)
“Acima de tudo, é preciso que um Presidente tenha postura. Vocês nunca me viram descontrolada ao lidar com derrotas, com pressão da imprensa ou com pressão da torcida. Eu sempre procuro o equilíbrio, porque ninguém sabe mais do que eu o que é melhor para o meu clube. Perder um título, uma final, não significa que o trabalho é ruim ou que está sendo mal executado. É preciso agir sempre com racionalidade, nunca se guiar pela emoção. É óbvio que ninguém gosta de perder, mas as cobranças eu faço internamente aos meus profissionais, nunca na mídia. O respeito é fundamental para se adquirir a confiança de todos”, concluiu Leila Pereira, em entrevista ao Portal da Liga.
A presença de dirigentes de clubes de diferentes perfis na Confut reforça uma percepção importante sobre o Futebol Brasileiro: não existe uma única fórmula “certa” de gestão. Clubes associativos, SAFs, grandes marcas, empresas de tecnologia e novos modelos de relacionamento com torcedores convivem dentro de um mesmo mercado. O que todos têm em comum é a urgência de profissionalização.
O gramado também virou questão estratégica
Pode parecer um mero detalhe para quem acompanha o futebol apenas pela televisão, mas a qualidade do gramado está diretamente ligada ao desempenho esportivo dos jogadores, à prevenção de lesões e às operações logísticas de um clube.
Durante a Confut, o diretor de operações do Grêmio, Thiago Floriano, explicou algumas questões sobre os desafios que envolvem a manutenção de um gramado natural de alto nível.
“Só esse ano, por exemplo, o Grêmio investiu 500 mil reais em lâmpadas de energia de suporte, daquelas que se ligam à noite, para manter o gramado preservado durante o frio. Isso é uma tecnologia de ponta, e todos os clubes deveriam manter essas questões estruturais em nível de excelência. O número de jogos também é um desafio, porque com o número de jogos do calendário brasileiro, o gramado vai se desgastando com o uso, como um sapato. Em cidades que são muito quentes no verão e muito frias no inverno, como Porto Alegre, essa amplitude térmica influencia bastante a necessidade de troca do gramado. Então manter um padrão de qualidade para receber jogos é um grande desafio”, contou Thiago Floriano, em entrevista exclusiva para o Portal da Liga.
Gramado, centro de treinamento, operações de estádio, recuperação de atletas e tecnologia estão conectados dentro de uma mesma lógica: quanto melhor a estrutura e a gestão, maior é a capacidade de um clube entregar um bom desempenho dentro de campo.

Botafogo mostra como dados podem gerar receita
Um dos cases que mais chamou atenção na programação foi apresentado por Caio Vieira, coordenador de marketing do Botafogo, sobre a utilização do CRM como ferramenta de relacionamento e geração de receitas. Segundo o clube, a estratégia apresentou retorno superior a 20 vezes o investimento realizado, enquanto a base de torcedores que recebe a comunicação oficial registra taxa de conversão de 35%.
“A nossa base de fidelização dos torcedores que recebem a comunicação oficial do Botafogo é tão qualificada que nossa taxa de conversão é de 35%, um número extraordinário. É esse torcedor que consome os produtos oficiais, frequenta o estádio, etc. Sabemos exatamente quem são e, com uma base de dados forte, conseguimos oferecer experiências ainda mais personalizadas, e assim, geramos renda”, explicou Caio Vieira durante o painel.
O mais interessante desse case é que os dados, sozinhos, não valem tanto. O que importa é o que o clube consegue fazer depois de entender o comportamento do torcedor. Quem compra? Quem apenas acompanha? Quem abre os e-mails? Quem demonstra interesse em determinado produto, mas não finaliza a compra? Quem frequenta o estádio? Quem pode ser convertido em sócio?
Entender o comportamento do torcedor é fundamental para que o clube consiga oferecer produtos, experiências e conteúdos mais relevantes para cada perfil de público. O objetivo, portanto, não é apenas transformar dados em receita, mas utilizar essas informações para construir uma relação mais próxima e permanente com a torcida.
O case apresentado pelo Botafogo aponta para uma mudança importante na relação entre clubes e torcedores: a torcida pode ser tratada como base de relacionamento permanente, e não apenas como público para o dia do jogo.
O que a Confut 2026 deixa para o Futebol Brasileiro?
Depois de três dias de debates, entrevistas e conversas com profissionais de diferentes setores, fica difícil olhar para o Futebol Brasileiro apenas pela perspectiva do resultado de cada jogo. É claro, o jogo continua sendo o centro de tudo e assim deve continuar, mas existe uma engrenagem muito maior girando ao redor dele e fazendo tudo acontecer.

Se existe uma conclusão possível, é que o futuro do Futebol Brasileiro não será definido apenas por quem contratar os melhores jogadores, mas também por quem conseguir administrar melhor tudo aquilo que acontece ao redor deles.
É justamente aí que um evento da magnitude da Confut deixa de ser apenas um encontro de executivos e passa a funcionar como uma espécie de fotografia do futebol que está sendo construído agora.
Tecnologia, dados, arbitragem, formação, gestão, estrutura e relacionamento com o torcedor não são mais assuntos periféricos, e sim parte do jogo. E, para quem administra um clube, ignorar essa transformação pode significar ficar preso a um modelo de futebol que já não existe mais.
