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Made in Cotia: O descaso histórico do São Paulo com seu pote de ouro

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Foto: Rubens Chiri e Miguel Schincariol

O São Paulo Futebol Clube é reconhecido como uma das equipes mais vitoriosas do pais, com destaque ao tricampeonato mundial, sendo que parte deste sucesso é decorrência direta de sua categoria de base. Mesmo que muito ídolos sejam projetados ao profissional por outras agremiações, como Careca, Lugano e Zetti, é muito comum um jogador proveniente da categorias inferiores do tricolor subir e se tornar um ídolo. Ou melhor, era muito comum, pois recentemente os casos são escassos e criam-se questionamentos sobre. O nível da base decaiu? O que houve com uma das categorias mais respeitadas do país?

Desde cedo, é preciso frisar que o problema não é ausência de talento. Para quem acredita que a qualidade dos jogadores advindos de Cotia é inferior de outrora, precisamos cavar um pouco para compreender onde que as coisas mudaram. E a primeira etapa é retomar 2005, quando o Centro de Formação de Atletas Presidente Laudo Natel (CFA) foi inaugurado. O projeto foi desenvolvido pelo presidente Marcelo Portugal Gouvêa e possuía uma estrutura muito respeitada pela concorrência. Uma equipe que já havia desenvolvido Müller, Rogério Ceni, Kaká e mais recentemente Hernanes ainda promoveria Lucas Moura, Casemiro e Éder Militão para o mundo.

Entretanto, o mal que afetou o São Paulo também respingou em Cotia. O São Paulo parou no tempo, o que resultou na seca de títulos por 9 anos. Neste período, o tricolor apostou em nomes renomados, contratou jogadores que se destacaram no Brasileirão e trouxe uma enxurrada de técnicos. E, inevitavelmente, os juniores foram afetados, recebendo menos espaço e só estando presentes na equipe em casos de lesão ou de um destaque incontestável. Na década de 2010, surgiram Rodrigo Caio, Lucas Evangelista, David Neres, Helinho, Antony e Gabriel Sara. Destes, somente Evangelista e Helinho não figuraram na seleção brasileira principal.

Nos últimos anos, São Paulo ainda revelaria mais dois jogadores que seriam convocados para a seleção: Beraldo e Pablo Maia. E um termômetro para o nível das categorias inferiores é a Copinha. De 2005 para cá, o tricolor conquistou a Copa São Paulo de Futebol Júnior três vezes. Em 2010, ganharam em cima do Santos, enquanto 2019 foi em cima do Vasco, sendo ambas as conquistas nos pênaltis. Em 2025, a equipe virou para cima do Corinthians na final, sagrando um trabalho sólido de Allan Barcellos, que ainda chegaria na final no ano seguinte. E o desempenho seria recompensado. Ou pelo menos esta era a promessa, mas é aí que entra os verdadeiros culpados pelo sucateamento de Cotia.

A bagunça que foi a presidência no São Paulo desde o início da seca obviamente interfere, com os episódios mais recentes escancarando que não há o interesse necessário em Cotia para manter esta base histórica respirando sem aparelhos. Na gestão Casares, o São Paulo quase encaminhou um negócio com o empresário grego Evangelos Marinakis que cederia parte dos lucros da base ao investidor. Porém, a diretoria pausou as conversas para refazer o contrato e evitar conflitos com o estatuto do clube. Esta negociação foi fortemente contestada por uma parte significativa da torcida, aliado a vendas abaixo do valor esperado de jogadores revelados pela base.

Nomes como William Gomes, Ângelo, Matheus Alves, Lucas Ferreira e Henrique Carmo são os maiores exemplos de subvalorização, levando em conta o saldo de suas transações. E os jogadores provenientes da base remanescentes do time revezam seu tempo de jogo com outros com maior renome. Com exceção de Pablo Maia, Maik, Nicolas Bosshardt, Djhordney, Pedro Ferreira, Tetê e Lucca vem somando pouco tempo de jogo nas mãos de Roger Machado, enquanto medalhões com desempenhos irregulares parecem receber a prioridade. A impressão que fica é, se deseja assistir jogos destes garotos, assista apenas os jogos das divisões inferiores.

Sobre Allan Barcelos, foi prometido a presença como integrante da comissão técnica fixa do departamento de futebol profissional. Mas em um movimento súbito e acompanhado de uma chuva de questionamentos da torcida são-paulina, Hérnan Crespo foi demitido em um dos seus melhores momentos a frente da equipe e Roger assumiu. Barcelos não foi promovido e sua indignação culminou em sua saída. Para piorar, Allan foi para o rival Palmeiras, clube famoso por desenvolver suas joias e vender por cifras altíssimas. E mais uma vez, Cotia sofre um duro golpe.

Made in Cotia já foi um lema respeitado e reprisado na boca de milhares. Hoje é um símbolo do passado esquecido e de resistência, pois se um jogador aparece na seleção brasileira, pode apostar que teve pouco tempo no tricolor antes de evoluir em outras equipes. A paciência do São Paulo com promessas é patética e os técnicos que assumem tem o hábito de queimar os novos talentos. É uma cultura doentia que vem minando as promessas que o clube deveria valorizar. Cotia tem ficado para trás, mas não foi um processo acidental. Foi negligenciado e a base grita por socorro. Se a torcida não houver, ninguém ouvirá.

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