O futebol é imprevisível, mas o desfecho do Guarani na Série C do Campeonato Brasileiro foi uma tragédia anunciada. Na tarde do último sábado (29), o Brinco de Ouro da Princesa recebeu mais de 9 mil torcedores esperançosos, prontos para apoiar o Bugre até o apito final.
No entanto, o empate por 2 a 2 contra o Brusque selou a eliminação bugrina ainda na primeira fase da competição. O Guarani, dono da folha salarial mais cara do campeonato e vindo de uma trajetória na qual figurou no G-8 por 16 das 19 rodadas, terminou em um melancólico 10º lugar, com 28 pontos, apenas um a menos do que o necessário para avançar ao quadrangular decisivo.
Estive presente no gramado do Brinco de Ouro acompanhando de perto cada detalhe e tensão desse confronto. O que se viu dentro de campo refletiu fielmente a tônica da temporada bugrina: um início promissor, seguido de desatenção, falta de gestão emocional e um adversário seguro que soube aproveitar os erros do mandante.
O protagonismo inesperado de Paulo Gianezini e a casca do Brusque
Se o Guarani não conseguiu traduzir seu volume de jogo em vitória, muito se deve à atuação mágica do goleiro Paulo Gianezini, do Brusque. Sem atuar em partidas oficiais desde junho do ano passado, o arqueiro foi escalado e acabou se tornando o grande nome do Quadricolor na partida, garantindo intervenções decisivas no primeiro e no segundo tempo.
Na saída do gramado, conversamos com o goleiro Paulo. Sincero, ele destacou o valor desse resultado e do nível de exigência da partida para a sequência da temporada do Brusque:
“Foi um jogo extremamente importante e duro para dar casca ao Brusque para a segunda fase. Enfrentar o Guarani aqui no Brinco exige muito, e saímos fortalecidos para o quadrangular.”
Com o resultado, o Brusque confirmou a vice-liderança da primeira fase (32 pontos) e avança para o Grupo C ao lado de Ferroviária, Inter de Limeira e Paysandu.
O filme que se repete: Ilusão no 1º tempo e o apagão na etapa final
O jogo começou com o Guarani impondo ritmo forte sob a estreia de Umberto Louzer. Com apenas dez segundos de bola rolando, a equipe mandante já alçava bola na área adversária. Aos 22 minutos, Isaque carimbou o travessão do Brusque. A recompensa veio aos 33 minutos: Dudu cruzou com precisão e Maranhão se antecipou à marcação para cabecear firme, abrindo o placar. O placar de 1 a 0 dava a vaga direta ao Bugre.
Porém, o segundo tempo escancarou o fantasma das viradas que perseguiu o Guarani ao longo da competição. O técnico Higo Magalhães promoveu a entrada de Petterson na volta do intervalo, e o atacante mudou a história do jogo. Aos 11 minutos, Petterson chuta de fora da área, a bola desvia no meio do caminho e engana Caíque França: 1 a 1.
Apenas três minutos depois, veio o golpe devastador: Maurício errou na saída de bola e Petterson puxou contra-ataque letal, servindo Ariel na cara do gol para virar o jogo para 2 a 1. O Guarani ainda buscou forças no talento de Matheus Guilherme, que aos 30 minutos empatou em 2 a 2. Nos minutos finais, a pressão bugrina foi intensa, mas esbarrou nas defesas de Paulo Gianezini e no apito final que decretou o fim do sonho.
Quem são os responsáveis por essa elminação precoce?
Não se engane: o Guarani não foi eliminado no empate deste sábado. A queda no Brinco de Ouro é fruto de uma sucessão de erros grotescos de planejamento da diretoria encabeçada pelo presidente Rômulo Amaro e pelo executivo Carlos Frontini.
Montar a folha salarial mais cara da divisão apostando em receitas incertas (como a venda de Richard Ríos e uma promessa de SAF que não saiu do papel no tempo esperado) cobrou o seu preço. Os salários atrasaram, o ambiente no vestiário pesou e o rendimento despencou: nos últimos nove jogos, o Guarani venceu apenas uma vez.
O próprio executivo Carlos Frontini admitiu no pós-jogo com rara e dolorosa sinceridade: “O dinheiro sempre ficou na frente da classificação”. Trocar de treinador três vezes no ano (Matheus Costa, Elio Sizenando e Umberto Louzer) só reforça a ausência de convicção. O investimento em nomes rodados não trouxe o retorno esperado, e a base foi sumariamente ignorada.
Protestos, vandalismo nas ruas e o fantasma da Série C
A frustração da torcida, que cantou e incentivou durante os 90 minutos, transformou-se em revolta após a confirmação da eliminação. Do lado de fora do estádio, o clima esquentou e cenas lamentáveis de vandalismo foram registradas, com prejuízos e destruição de propriedades no entorno do Brinco de Ouro.
Foto: Campinas em Foco
Enquanto a torcida do Guarani chora esse que será o terceiro ano consecutivo na Série C do futebol nacional, nas redes sociais o clima do outro lado da cidade é de pura provocação. Torcedores da Ponte Preta comemoraram efusivamente a queda do rival. Como a Ponte ocupa a lanterna da Série B e caminha a passos largos para o rebaixamento, os pontepretanos já celebram a certeza de que teremos o clássico campineiro de volta no calendário da Série C em 2027.
O Guarani precisa urgentemente decidir o que quer ser no cenário nacional. Apostar no “dinheiro que vem depois” e na arrogância do favoritismo de papel provou ser a receita perfeita para o fracasso. Sem uma reformulação profunda no comando, na gestão e no pensamento futebolístico, o martírio na terceira divisão continuará sendo a rotina do torcedor bugrino.
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