A Copa do Mundo é o maior evento midiático do planeta. Possui um alcance irrefutável e este ano ampliará sua área de atuação devido a dois fatores. A escolha de 3 países para sediar o evento já a qualifica como inédita, enquanto a decisão de classificar 48 países para a disputa a configura como a Copa mais duradoura em questão de jogos. Porém, estas modificações, por mais que positivas, conflitam quando o assunto é Estados Unidos, e iremos destrinchar onde esta Copa do Mundo pode pecar.
Para entender como o país norte-americano pode se tornar um entrave dentro do torneio, precisamos entender o histórico recente de atuação da federação de futebol e do contexto geopolítico mundial. A FIFA já demonstrou possuir boas relações com os Estados Unidos durante a Copa do Mundo de Clubes. Isso sem contar que o presidente da federação, Gianni Infantino, escolheu premiar o presidente Donald Trump com o Prêmio da Paz. E justamente este prêmio serve de gancho para o cenário geopolítico.
Em sua segunda passagem pela presidência do país, Trump adotou medidas mais radicais em relação ao movimento MAGA (Make America Great Again) e intensificou as ações da ICE, que é o serviço de imigração e controle de alfândega no país. Além de proporcionar uma deportação em massa de imigrantes ilegais, o político também apontou que haveria uma força-tarefa para conquistar a área da Groenlândia, sendo um território autônomo da Dinamarca, semelhante a Porto Rico para os Estados Unidos. Mas o acontecimento que deixou os jornais pelo mundo em polvorosa foi a captura de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
Todas estas ações tomadas pelo governante encontraram um ponto de ebulição durante dois eventos: o Grammy e o show do intervalo do Super Bowl. O nome do momento é o cantor Bad Bunny, porto-riquenho que utilizou a premiação para criticar Trump, enquanto apresentou no show do intervalo um conteúdo 100% em espanhol, contrariando o status quo do evento e levando o presidente a se posicionar de forma dura em suas redes sociais. E, por incrível que pareça, toda esta história não é abstração, é uma ilustração de como está o cenário estadunidense pré-Copa do Mundo.
A Copa já foi um termômetro para o que o mundo enfrentaria. Em 1934 e 1938, Mussolini propagou o fascismo italiano, assim como Hitler faria nas Olimpíadas de 1936. Ainda em 38, a escolha da sede buscou isentar o torneio de qualquer posicionamento político, mas foi inevitável que o mundo visse a Itália vitoriosa realizando saudações fascistas. E, voltando aos tempos atuais, os Estados Unidos enfrentam confrontos internos e externos que desqualificariam o país para o evento. Boicotes europeus, a proibição de certas torcidas e a batalha contra a América Latina, cada vez mais unida, inflamam ainda mais este caldeirão, e a Copa não pode ser inferior a tais questões, ela precisa ser o evento principal e não assistir da arquibancada enquanto polêmicas tomam a frente.
As próximas semanas serão decisivas para definir como a FIFA se posicionará em relação aos eventos recentes. Podemos ter os ânimos se apaziguando dentro do país e a situação se estabilizando para o torneio. Ou seguiremos com um evento onde a América Latina se sentirá ameaçada de presenciar uma das maiores competições do esporte, enquanto Senegal, Costa do Marfim, Irã e Haiti seguem enfraquecidos por não poderem contar com sua torcida. A Copa é logo ali, mas quem poderá presenciá-la e como ela será? Só o tempo, os Estados Unidos e a FIFA poderão responder isso e esperamos que parem de adiar este retorno.