“Hoje temos que chorar, temos que derramar as lágrimas” – Pedro Emanuel lamenta derrota, mas fala sobre dor da maturidade.
Quando o sorteio colocou o Boca Juniors no caminho das semifinais, a dúvida entre os vascaínos era: “será que essa equipe vai suportar a pressão de um jogo como esse?”. A vitória histórica na Argentina transformou o receio em euforia, contagiando os mais de 60 mil torcedores que lotaram o Maracanã e os milhões que acompanharam o jogo na nesta última terça feira (20). A noite que prometia ser de celebração, porém, terminou em frustração com a derrota por 3 a 1. Sem as respostas em campo, a torcida espera as explicações da sala de imprensa. Pedro Emanuel não se escondeu diante dos questionamentos e esclareceu todas as nuances relacionadas ao jogo, inclusive a falha de Léo Jardim.
Inicialmente, ele admitiu que o Vasco facilitou o caminho do rival nos primeiros 45 minutos ou no português mais popular, “vendeu barato” a vaga na final. Apesar da derrota, ele se disse orgulhoso da equipe e ressaltou a trajetória na competição, considerada, nas palavras dele, “descartada” quando assumiu o comando do time.
“Sofremos um gol com dois minutos, fruto de erros individuais, que faz parte do futebol. Por isso esse jogo é tão interessante, feito de erros. Sei que na primeira parte fomos quem mais erramos, e fomos penalizados. O Boca não fez uma partida extraordinária, mas aproveitou nossos erros técnicos, nossas falhas emocionais. Um gol aos dois minutos altera a estratégia. No minuto seguinte tivemos uma oportunidade clara para empatar o jogo e não conseguimos concretizar. Tudo isso pesa. O Boca teve o trabalho facilitado na primeira parte.”
Os dias que antecederam a decisão foram marcados por intensas polêmicas nos bastidores e discussões burocráticas sobre o local da partida, tanto quanto o que poderia acontecer dentro das quatro linhas. Entretanto, ao comentar o terceiro gol do Boca, em que Léo Jardim aceitou o chute, Pedro Emanuel dividiu a responsabilidade entre o estado do gramado e a falha do goleiro, mas descartou qualquer tipo de “caça às bruxas”:
“Toda gente sabe… é uma trajetória da bola, que estava escorregadia, o gramado é novo… mas poderia ter feito melhor (…) Podem criticar os jogadores, mas sei que o erro individual pode ser superado com ajuda coletiva. Isso vamos ter que fazer. Sofremos um gol aos 88 minutos, em que Léo poderia fazer mais. Estamos aqui para apoiar. Já nos salvou muitas vezes. Não vou abandonar o Léo, e digo que é quem vai jogar no sábado. Isso faz parte do jogo. Protegemos uns aos outros. Ele é um grande profissional, um grande homem, um dos capitães da equipe, uma referencia que tem correspondido.”

Diferente da voz nas arquibancadas, o técnico lusitano faz uma leitura fria da segunda etapa. Ele destaca que essa partida precisa de uma avaliação autocrítica se distanciando de uma análise emocional dos fatos. Sua fala expressa, principalmente, o orgulho em seus jogadores, por compreender que um grupo de atletas é composto por variados fatores emocionais, técnicos e físicos. Em sua avaliação, o jogo demonstra a consolidação de um grupo que reaprendeu a competir em alto nível, ainda que o placar não tenha refletido isso.
“A principal lição foi quando vi a desilusão no vestiário. Foi um enorme orgulho aquilo que construímos a partir do quase zero. De uma competição em que nós estávamos em terceiro plano e quase chegamos à final. Portanto, acho que revela bem o que este grupo tem de bom, da ambição que eles têm demonstrado. Nunca viraram a cara à luta, em nenhum momento (…) Não é fácil entrar num jogo com o Boca, perder por 2 a 0 em nossa casa e fazer a segunda parte que fizemos. Não há justiça ou injustiça, há o resultado. Acho que merecíamos mais. Senti um orgulho enorme, e toda nossa torcida também. Fizemos uma boa prova. Queríamos estar na final.”
Nesse momento, alguns torcedores se apegam a ideia de que um time vencedor naturalmente passa por um processo de “maturação” antes de erguer a taça. Para uma equipe que emplaca sua terceira semifinal consecutiva de Copa do Brasil e agora bate na trave continental diante do Boca Juniors, fica a lição do peso das grandes noites de copa. Pedro Emanuel enfatizou que o clube precisa reaprender os caminhos para ser campeão, resta ao vascaíno a esperança que o dia de gritar “é campeão” fica mais perto a cada decepção.
“De fato nós só ganhamos maturidade jogando esse tipo de jogo. Há alguns anos não estávamos presentes em fases como esse. Alguns jogadores não vivenciaram. Se calhar, a partir de hoje começam a crescer e a perceber o que é alta competição e o que é jogar para ganhar títulos. Temos mantido uma cultura de vitória. É importante o Vasco voltar a ter. O Vasco é clube com tradição e história riquíssima, mas que tem estado longe disso. Temos que voltar a ter esse tipo de mística dentro do clube para lutar por troféus. Apenas competindo como competimos hoje… temos que voltar a criar dentro do Vasco. Hoje senti orgulho do que foi vivenciar um jogo no Maracanã tão cheio e tão vibrante como foi. Amo futebol… a paixão e energia que senti hoje é inigualável. Isso valeu a minha vida para conhecer o futebol brasileiro.”
Questionado sobre o diferente desempenho em Buenos Aires e as dificuldades encontradas no Rio de Janeiro, o treinador detalhou as falhas de tomada de decisão do setor ofensivo e destacou o impacto de Leandro Paredes na engrenagem rival.
“Aquilo que pretendia com a entrada do Adson e DVD acabaram por não ser aproveitado por nós. Na primeira fomos muito precipitados, muitos erros técnicos, falhas de passe. As bolas também não chegaram em boas condições aos homens da frente (…) Começamos a precipitar, com e sem bola. Pressionamos mais alto, o Boca começou a lançar nas alas. Começamos a precipitar na tomada de decisão e permitimos o adversário a ser melhor do que era na realidade. Faltou mais agredir o gol do adversário. Tínhamos remates que poderíamos ter enquadrado melhor. No final, merecíamos mais qualquer coisa desse jogo, pelo menos marcar mais um gol. Na segunda parte o Boca fez menos finalizações. Ainda nessa questão do Paredes… sabemos que o Boca é diferente com Paredes e sem Paredes. O Boca quer mais a bola quando tem Paredes por dentro, e no único momento que libertamos o Paredes, faz o gol que decide uma semifinal.”
Para concluir, o técnico português lamentou a ausência do Andres Gomez que foi suspenso no primeiro jogo e explicou a opção pelo David. Em algumas prévias, o ataque titular era formado por Marino, Bruno Duarte e Adson.
“O Andrés tem características diferentes daqueles que jogaram. Dá uma dinâmica diferente a nossa equipe quando joga (…) Eu senti que o DVD poderia nos dar uma coisa que ele tem. No duelo era importante se posicionar em uma zona que poderia atrair o Di Lollo, o zagueiro mais poderoso no ar, mas que tem mais dificuldades quando é posto em momentos de 1×1, fora da zona de conforto. Na primeira parte ficamos muito distantes. Essa foi a ideia do DVD, sendo Adson um jogador que poderia flutuar mais e prender o Battaglia. Foi minha responsabilidade.”
