Santos amassa o Atlético-MG na eficiência e sai em vantagem na Sula
Cobrir um jogo das tribunas da Vila Belmiro pela primeira vez tem um peso diferente. Sentado logo acima do setor onde a torcida visitante se acomoda, a leitura do gramado ganha uma pegada de sentimento de arquibancada.
Neste cenário de caldeirão, o Santos derrotou o Atlético-MG por 2 a 0 e construiu uma vantagem confortável. Mas ir além do placar é obrigação: o futebol apresentado pelo time de Cuca pode não ser o mais vistoso do país, só que é absurdamente pragmático. O Peixe de hoje não perde tempo brincando com a bola; ele atrai, estica o campo e liquida a fatura.
Como foi o primeiro tempo:
O apito inicial trouxe uma estreia cercada de desconfiança na lateral-direita. Rodinei fez sua primeira exibição com a camisa santista e, no primeiríssimo lance, entregou a posse de forma infantil. A arquibancada chiou e confesso que a crítica na bancada foi imediata. Mas o futebol pune o julgamento precipitado. O lateral não se abalou, passou a apoiar com inteligência e logo desferiu um passe fenomenal para Rollheiser, gerando o escanteio que mudou a postura do time em campo.
O Santos começou elétrico. Aos 3 minutos, Gabriel Bontempo (recém-convocado por Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira) soltou uma pancada para grande defesa de Gabriel Delfim (que substituía Everson). Aos 7, Bontempo e Gabigol tramaram boa jogada pela direita, pecando apenas pelo capricho final do camisa 9 no momento do arremate.
O Galo tentou responder. Aos 16 minutos, quando o ataque mineiro desenhava uma chance clara de chute, Gustavinho cruzou o gramado em uma recomposição exemplar e deu um carrinho cirúrgico para travar a finalização. Era o retrato do Santos na primeira etapa: linhas ligadas, doação física e atenção máxima.
Após a parada técnica, o Peixe teve uma breve queda de concentração (Fred quase aproveitou) , mas a resposta veio com o gol. Em jogada trabalhada por Gabigol e Gustavinho, a bola sobrou limpa para Willian Arão encher o pé e soltar uma bica: 1 a 0. A demora infinita do VAR testou os nervos da Vila, mas a validação confirmou a justiça do placar.
Antes do intervalo, ainda houve tempo para Thaciano assustar e para Arão consolidar uma atuação monstruosa. No último lance do primeiro tempo, Bernard cobrou falta perigosa e o próprio Arão apareceu como um zagueiro clássico na pequena área para tirar o perigo. Um lance que valeu tanto quanto o gol marcante.
Como foi o segundo tempo
Na volta do intervalo, sem alterações, o Atlético-MG ensaiou uma pressão nos primeiros sete minutos. Renan Lodi exigiu uma defesaça de Gabriel Brazão em chutaço cruzado, e Fred tirou tinta da trave logo em seguida, fazendo a massa atleticana ao meu lado enlouquecer na tribuna. Aos 8 minutos, Gabigol foi derrubado na área e o Santos pediu pênalti, mas a arbitragem mandou seguir.
Foi quando Cuca mexeu nas peças e mudou o tom da partida: sacou Thaciano e promoveu a entrada de Arthur, deslocando Rollheiser para a ponta. No seu primeiro toque na bola, Arthur deu uma fatiada espetacular que organizou o meio-campo. A partir daí, o que se viu foi uma verdadeira blitz santista.
Rodinei fez grande jogada pela direita e cruzou para Rollheiser testar firme, obrigando Delfim a fazer grande defesa. Logo depois, Arthur achou Gabigol, que bateu no canto para mais um milagre do goleiro atleticano. Na sequência do sufoco, Bontempo parou novamente no arqueiro do Galo.
O segundo gol era questão de tempo e maturidade. Ele nasceu do talento e do aproveitamento de falhas do rival: Arthur achou Gabigol livre; o camisa 9, em noite de garçom, serviu Oliva, que bateu firme para ampliar para 2 a 0 e explodir a Vila Belmiro.
Da tribuna, a sensação era cristalina: enquanto o Santos mantinha as linhas compactas e letais no contra-ataque, o Atlético-MG se desfazia emocionalmente. Lyanco errou sucessivos passes na saída de bola. Aos 40 minutos, a torcida do Galo já havia desistido do jogo, virando as costas para o gramado e passando a direcionar xingamentos a Neymar, presente nos camarotes da Vila.
As virtudes de Cuca e os destaques individuais
O Santos de Cuca sabe exatamente o que quer em campo. O time cede a posse de bola quando necessário, mas entrega uma recomposição perfeita com Oliva e Gustavinho, além de punir cada milímetro de espaço dado pelo adversário.
Três nomes merecem o topo das menções honrosas no confronto:
- Willian Arão: Uma atuação de almanaque. Gol marcado, cortes providenciais na área, passe apurado na saída de jogo e uma presença física que impõe respeito na cabeça da área.
- Rollheiser: O motor criativo da equipe. Participativo, encontrou espaços entre as linhas do Galo enquanto esteve em campo (mesmo que sua parte física ainda o limite a cerca de 70 minutos de jogo).
- Gabigol: Pode errar finalizações e irritar a arquibancada em determinados momentos, mas é decisivo. Em uma noite de menor brilhantismo no arremate, entregou duas assistências cruciais para os dois gols da partida.
Além deles, a postura de Rodinei após o erro inicial, a entrada madura de Arthur e a vivacidade de Gabriel Bontempo mostram um elenco encorpado e pronto para os desafios da temporada.
O que vem pela frente
O resultado dá ao Santos uma margem sólida, mas que exige atenção para o jogo de volta na Arena MRV, marcado para o dia 16/09, às 19h. Antes disso, no entanto, a Vila Belmiro volta a ser o palco do Peixe no próximo sábado (12/09), às 21h, em duelo contra o Cruzeiro.
Se mantiver o nível de compactação defensiva e a voracidade no ataque demonstrados nesta noite, o Santos deixa claro para o futebol brasileiro que a Vila Belmiro voltou a ser um território inóspito para qualquer visitante.
